Nenhum gorgeio de passaro percebo na larga mudez circumdante.

No alto, o ceu, apinhado de nuvens escuras, encobre-me aos olhos a risonha alegria do seu puríssimo azul, adoravel como as pupillas d'uma imagemzinha da Virgem, que minha Mae, em pequenino, ensinou-me a reverenciar com o contemplativo respeito das creanças absôrtas!

Passamos n'este mesmo instante sobre o logar onde atufou-se a elegante embarcação aventureira.

Um pensamento de saudade[{43}] assalta-me o espirito, agora que deslisei rápido por cima do líquido sapulchro de tantos infelizes.

Relembro, com a forçosa evocação do meu passado, as confusas recordações da primeira edade e reproduzo na mente, consoante ás narrações da época, o pasmoso entrécho do hórrido espectaculo.

Vejo pessôas de todos os sexos e edades, em meio á densa escuridão da noite, bramindo apavorados gritos, impetrando o auxilio do ceu impassivel, amaldiçoando o momento final com o tôrvo desespéro das grandes afflições.

A bracejar contra a correnteza, lobrigo um ou outro naufrago n'aquelle pégo, quasi tão vasto como o do mantuano cantor. Uns, redobrando de esforços, conseguirão alcançar a margem anhelada;[{44}] a mór parte, porém, certo fraquejará impotente na violencia das aguas e rolará inanimada aos profundos antros dos caimões!

N'um camarote, vencida, dominada por tredo somno, uma joven mulher angelical, esposa extremecida e extremosíssima, é surprehendida pelas aguas em sua descuidosa seminudez inconsciente e logo suffocada sem haver tempo de reconhecer o perigo por que passa com os seus,—com os parentes affectuosos e com o infeliz marido, o commandante austero, de quem separa-a, sem transigencias, a comprehensão do cumprimento do dever.

E ali morre, com o pobre coração retalhado de angustias e amaríssimas saudades, uma valente mulher de temperamento e actividade virís, guia e ama de muitos d'aquelles naufragos. É a heroica[{45}] exploradora d'uma parte do rio Madeira, a veneranda mãe d'um punhado de homens honrados e de honestíssimas mulheres,—a idolatrada mãe d'aquella excelsa creatura que deu-me luz aos olhos e piedosos sentimentos ao coração!

II