Nenhuma doutrina fundamentalmente damninha ou immoral—contraria ao interesse collectivo, em summa—, pode duradouramente predominar, pois a convergencia espontanea de tendencias superiores, e socialmente vantajosas, elimina aos poucos a tendencia regressiva que qualquer doutrina representa. É o que se teria dado com os jesuitas, si verdadeiras foram as accusações que lhes moviam seus adversarios.

Um dêstes, porém, e dos mais intelligentes, Voltaire, bem os defende de taes increpações, quando pondera: «Nenhuma seita,{18} nenhuma sociedade teve jamais ou poderá ter o intuito preconcebido de corromper os homens».

No seu afan de salvar eternamente as creaturas, de «ser tudo para todos, para ganhar a confiança de todas as almas», não tinham remedio os discipulos do Navarro immortal sinão multiplicar os pontos de contacto com o seculo, afim de se insinuarem em todas as classes e em todas ellas dirigirem a vida, collimando a eternidade.

Toda convicção profunda, principalmente em se tratando de problemas sociaes, é operante em sua essencia.

E desde que, contra as determinações primeiras do Fundador e mau grado a reserva imposta pelas assembléas da Ordem, se viram arrastados á direcção de consciencias régias, a intervenção dos jesuitas na politica era fatal e inevitavel, e fôra illogico suppor que tal se desse, contravindo os fundamentos da associação: predominio absoluto das conveniencias religiosas sôbre todas as considerações terrenas; acção internacional de seus membros ao envés das exigencias das collectividades nacionaes, lembrados de que universal é a Egreja e sem limites o Verbo-Divino; noção de humanidade contraposta á de patria. E só traíram tal missão os jesuitas, quando se accentuou a decadencia da Companhia.

É possivel que no tribunal da penitencia, em uma épocha agitada como foram o seculo XVI e o seguinte, quando as consciencias viviam perturbadas por paixões terriveis e actos de violencia, é possivel que a tolerancia e a benevolencia fôssem dictadas em parte pêlo dever politico de attrahir o maior numero de fiéis, certos como estavam os socios de Santo Ignacio da superioridade de sua acção, de seu triumpho final no bem e na pureza. Mas, por certo, nem foi o movel unico de sua actividade, nem, talvez, siquer o mais valioso.

Era velha a lucta entre a severidade e a indulgencia nos fastos da Igreja, e encontrava forma remota no contraste entre as imprecações de Isaias e de Ezequiel e a meiguice de Christo.

Fora da Sociedade encontravam-se laxistas. E, no seio della, a subtileza na analyse dos determinantes do acto culposo procedia essencialmente do amor ao proximo, que procurava encontrar attenuantes da falta, nem só restringindo os casos graves, passiveis de fulminação capital, como alargando a noção de venialidade.{19}

Mas o que mais contribuiu para crear a fama depreciadora da moral applicada pêla Companhia, foram as obras de theologia de Escobar, Busenbaum, Laymann, Sánchez e outros, onde os mais escabrosos casos vinham estudados e attenuados á luz de distincções de tal subtilidade, que se pôde sustentar ser permittida pelos jesuitas a pratica de todos os peccados.

O êrro, entretanto, era duplice.