Nem só taes obras não aconselhavam pratica alguma, apenas estudavam faltas já commettidas (o que é essencial no julgamento do alcance moral dos compendios). Visavam, além disso, guiar e instruir o director de consciencias em circumstancias espinhosas, procurando prever todos os desvios possiveis (e nisto residia grave cinca) e apurar, para cada um, o grau de responsabilidade e de culpa do delinquente. Não sem razão foram considerados verdadeiros manuaes do direito penal ecclesiastico, inteiramente comparaveis á literatura penal moderna; ambas destinadas aos juizes e aos philosophos, aos auctores nunca se devia accusar de provocadores da realisação de crimes que infringissem a lei vigente. E, entretanto, essa censura fez-se aos casuistas...

Não nos occupamos dos desvios excepcionaes dêste ou daquelle membro da Ordem: o juizo formulado abrange a esta em seu conjuncto.

Tanto o influxo politico da Ordem, como suas normas ethicas, postos de lado os abusos, nada tinham de systematicamente contrario á moral.

Eram conceitos antagonicos que se degladiavam: um, puramente religioso, internacional e superior ás cousas do mundo, tudo subordinava ás exigencias œcumenicas da Egreja; outro, admittia a iniciativa individual, mesmo no exame da lei revelada, circumscrevia-se aos limites de uma patria, não reconhecendo superioridade alienigena, pois ao proprio poder proclamava como dimanando directamente de Deus, e resultava do espirito de analyse favoneado pêla Reforma, das conveniencias nacionaes, do individualismo avido de se fortalecer.

Seria a escola, fatalmente, a arena da contenda, pois ahi se formaria a mentalidade das novas gerações de combatentes.

De um lado, a escola jesuita, baseada na auctoridade dos textos, contando, antes que aquilatando, os testimunhos e as opiniões, immobilisada{20} nas noções pedagogicas do seculo XVI, impermeavel ás novas correntes intellectuaes, nada concedera ás exigencias novas da nova phase social.

De outro lado, a escola regida por protestantes ou imbuida do espirito philosophico, de jansenismo ou de outros matizes mentaes, favorecia iniciativas, cultivando o eu, prégando a liberdade.

Contrapõe-se o surto individual á obediencia passiva, a exuberancia de movimento á immobilidade hieratica, obra de vida opposta á rigidez da morte.

Estas mesmas virtudes, entretanto, que levavam o pensamento emancipado a augmentar a intensidade da existencia pêlo auxilio prestado ás forças animadoras de suas proprias fontes, em seu nascedouro intellectual; essas mesmas virtudes aconselhavam á Egreja, tradicional e voltada para o passado, proteger as instituições que tão leal e fielmente traduziam seu modo peculiar de encarar e solver o problema capital da salvação das almas. Catholicismo e jesuitismo, no bom sentido do termo, estavam por demais unidos, intimamente ligados, como a essencia e uma das suas manifestações, para que pudessem perennemente estar divorciados. Era inevitavel cessasse o dissidio. Pouco durou, de facto: apenas o pontificado de Clemente XIV.

Não fôra, porém, inteiramente innocua para a disciplina da Ordem a resistencia á bulla de suppressão.