Não se póde fixar quando começaram as relações de D. Pedro com a dama de sua mulher; o supposto casamento é datado de 1354, tendo o principe quatro filhos. Um anno depois, a politica regia desfazia criminosamente este amoroso idyllio.
A tragica morte de Ignez é de sobejo conhecida. Camões a cantou em estrophes immortaes, traduzidas em todas as linguas. O vulto da desventurada apparece-nos como visão, na adolescencia, quando o nosso pensamento começa a divisar um novo ideal, quando o peito anhela um novo sentir, e o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se para o céo é acompanhado de uma ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como a castidade d’um seraphim. Tal é o amor ao principio!
Entrado no mundo, o homem, corrupto pela força das circumstancias, folheia o livro do passado, detem a vista sobre o começo da sua existencia viril e analysa esses ideaes crystallinos, sente no peito uma commoção triste, mas risonha, doce, mas dolorosa, que só nós, os portuguezes, sabemos bem definir—é a saudade!
Não que a carne ainda retenha o mesmo prisma; a mulher desapparece como o meteóro, mas o que fica arreigado ao coração, é a innocencia bonançosa que torna o espirito, amante sim, mas ao abrigo de Deus...
D. Affonso IV escolheu epocha propicia (7 de janeiro de 1355) para a sua fatidica empresa. Estavam desfolhadas as arvores: caudaloso o Mondego, espelho d’aquella ternura sem egual; brancos os cumes dos montes; o sol, defendido pelos negros torreões de nuvens, não quiz, condoido e triste, presenciar o espectaculo.
Dentro de seus paços, nos aposentos de uma fraca mulher, dois assassinos a apunhalavam com barbaridade sem parceiro na historia. Animava-os a politica do rei e o espirito da defunta Constança. Estava vingado o seu ciume.