Vira Leonor Telles quando o marido, cançado da monotona vida de provincia, partiu para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da realeza e o faustoso brilho da côrte. No peito do rei o coração ardia-lhe e no cerebro forjavam-se-lhe mil idéas pouco lisonjeiras para elle e pouco honrosas para o senhor de Pombeiro; mas não passou, ao principio, de idyllios imaginarios.
D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns espias preversos em casos d’amor, e por mais que fizesse, o rei não deixava de a contemplar.
Ella retrahia-se. Na sua alma damnada brotou o pensamento que a honestidade poderia servir de degrau para o throno. Talvez até se recostasse na fronte do esposo, para mais exasperar a paixão do pobre soberano!
Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre a ha quando o coração sente.—Receava magoar a honra d’aquella mulher. Poz de parte o receio; mas, como ainda lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou com a irmã, chorou aos pés de Maria Telles, supplicou-lhe que advogasse aquelle amor louco, que o faria abandonar a corôa se preciso fosse. Movida D. Maria de tão instantes rogos, procurou convencer a irmã. Convencida estava ella ha muito, desde que farejára os olhares do rei. Não o amava, mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um modo legitimo, bem entendido. Barregan d’el-rei... nunca; esposa, isso sim.
Lisboa alvoraçou-se com a nova.
Todos, á uma, estranharam o procedimento do filho do saudoso D. Pedro. A cidade resolveu representar n’este sentido nomeando seu interprete o alfaiate Fernão Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser falso o boato. Socegaram os animos.
Entretanto a côrte partiu para o norte do reino, e ao chegar a Leça do Bailio (1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em publico, como sua mulher.
Desligára-a de João Lourenço da Cunha, pretextando motivos de parentesco, e no logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe doou Alemquer e seus pertences.
Principia aqui a mais nojenta tragedia da historia de Portugal. Leonor Telles foi o Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára esta em Affonso Henriques, o valente fundador da nossa nacionalidade, acabára em D. Fernando, o fraco apaixonado de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando Aljubarrota a Ourique.
Germen da nova dynastia, teve fructos dignos de si e de seus passados: D. Duarte, sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota como Sancho II; D. João II, politico e justiceiro como D. Pedro I; e D. Sebastião (coincidencia notavel) amante da gloria, como D. Fernando o fôra de uma mulher, arrastou o paiz aos areaes da Africa, como este o arrastára á perdição infallivel, nas graças seductoras da sua amada!