O decorrer dos seculos ainda não poude absolver os crimes d’esta soberana.
O seu reinado é uma scena continua d’adulterios e de assassinios. Invejosa por natureza, convenceu seu cunhado, o Infante D. João, de que a mulher d’este (a D. Maria Telles que lhe approximára a corôa) lhe commettia infidelidade. Cioso, o principe matou-a. D. Leonor respirou; assim desfez o seu receio, porque temia a morte do marido e via com inveja que o throno seria occupado pela irmã e pelo infante, querido do povo, como filho d’esse rei de que elle conservava saudosa memoria.
O susto que a movêra a mais uma infamia, realisou-se no dia 22 d’outubro de 1383, epocha em que falleceu D. Fernando, aos trinta e oito annos d’existencia, talvez a mais amargurada e com certeza a mais vergonhosa de todos os nossos monarchas.
Depois da sua morte, a viuva assumiu a regencia, fazendo logo acclamar sua filha D. Beatriz, casada com D. João de Castella. Reinava emfim! Podia livremente fazer o que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas de ninguem; escusava de se valer dos seus dotes para obter uma vingança ou uma desforra. Ella era o poder supremo, grande, inegualavel!
Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na mesma moeda. Toda a gente sabia da privança do Conde Andeiro; revoltaram-se e convidaram o bastardo de D. Pedro, o Mestre d’Aviz, para assassinar o valido. Consumado este acto, D. Leonor recolheu-se em Alemquer, fiada na lealdade do povo e na fortaleza das muralhas. Foi a primeira vez que se lembrou do seu senhorio!
D. João mandou á villa dois embaixadores, a ver se negociava o casamento com a rainha. Recusada a proposta, o principe cercou-a; mas depois de varias refregas, veiu a noticia de que o rei de Castella já estava em Santarem, onde D. Leonor, temerosa, se refugiára. A maior parte dos sitiantes tinha abandonado o seu posto. Todos temiam o estrangeiro, quando os habitantes, lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se da entrega do reino, que punham as suas vidas ao serviço da independencia. No emtanto, a força subjugou-lhes a vontade, e o castelhano penetrou nas muralhas, arvorando a sua bandeira. Sciente o Mestre do occorrido, embarca no Tejo com varias forças e vem-lhe pôr novo cerco.
Houveram então valentes combates!
Aquellas encostas foram um vasto campo de batalha; ali pereceram muitas esperanças, ali se fortaleceu muita valentia, ali se deu um grande passo para a causa de Portugal.
Como a guarnição era valorosa, tiveram os do Mestre de recorrer ao prolongado sitio, vendo se assim se rendia.