Foi o que aconteceu a 10 de dezembro de 1384. Mais tarde (janeiro de 1385), a traição de Vasco Pires de Camões obrigou o Defensor do Reino a faltar aos compromissos tractados na capitulação.
Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra (1385), mandou demolir parte dos muros d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva de D. Fernando e pela fatal inclinação do Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára.
Leonor Telles falleceu encarcerada nas Tordesillas aos 27 d’abril de 1386,[16] talvez arrependida das suas culpas e seguramente convencida de que o echo da maldade é aborrecido por todos e em toda a parte.
SEGUNDA DYNASTIA
D. Filippa
Como dissemos, D. João de Castella transpozera a fronteira, preparando-se para cingir a corôa de Affonso Henriques. O paiz achava-se desunido e fraco, abatido pelo contagio da maldade que de tão alto o enervava; a nobreza, na maior parte, seguia o castelhano; só o povo se mostrava contrario ao usurpador e á rainha, que sempre odiára altivamente, apesar dos laços da forca apertados pelas bellas mas ferozes mãos de D. Leonor. No entanto, n’este cahos em que Portugal se encontrava, quatro homens appareceram destinados pela Providencia para a restauração da patria—o Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro Paes e Nuno Alvares—quatro vultos cujos nomes a historia gravou em letras de ouro e a arte na sua linguagem sublime esculpiu homericamente no mosteiro da Batalha, echo perpetuo dos vencedores d’Aljubarrota, padrão eterno de uma das maravilhas do universo, portal da gloria que Camões immortalisou nos Lusiadas; que é e será sempre o santuario do portuguez, romeiro patriota que, como o mahometano, pelo menos uma vez na vida, se prostra ante o tumulo do propheta.
O Mestre d’Aviz foi o instrumento da independencia; João das Regras, o defensor da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz e prepotente; o Condestavel, o general habilissimo que soube vencer os exercitos, como o advogado soubéra dominar a legislação.
Esta foi a gente que capitaneou a hoste popular, exaltada e patriotica, symbolo vivo de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando o direito com a melicia e a diplomacia, venceram o estrangeiro, conservaram a autonomia e encetaram o progresso no nosso torrão. A posteridade não lhes foi injusta—honra lhe seja—mas nos tempos de hoje, em que os chatins têem estatuas, elles dormem tranquillos nos seus tumulos, sem que nas praças publicas o povo, outrora soldado das suas fileiras, os venere no bronze, como em vida lhes votou todo o seu amor!