Apezar da nossa decidida abnegação e de termos vencido o inimigo (14 d’agosto de 1385), entendeu D. João I ser conveniente uma alliança politica; fôra ella tractada com o Duque de Lencastre, João de Gant, pretendente de Castella e consumado pelo casamento do rei com D. Filippa, filha do principe inglez, a qual recebeu em dote o senhorio de Alemquer, Cintra, Obidos, Torres Vedras e outras villas.
O consorcio realisou-se na cidade do Porto (2 de fevereiro de 1387), debaixo das bençãos dos prelados e dos applausos dos populares, que adivinhavam uma nova éra para a corôa e para o paiz.
Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa a scena do reinado anterior; mas se a mancha da impudicicia póde ser apagada na historia d’um povo, certamente a virtude que se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza com o desbragamento de Leonor Telles, compensou o interregno infame em que o pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido.
D. Filippa de Lencastre reatou os laços de honestidade que sempre existiram no throno. Mãe de heroes, que soube crear, esposa d’um soberano illustre, que sempre allumiou com o facho da virtude; rainha, mas dona de casa, sem se intrometter na politica, como desastradamente depois fez sua nora Leonor d’Aragão, ella é o symbolo do que ha de mais grandioso na nossa historia e do que ha de mais nobre n’uma mulher.
Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento da nossa monarchia succumbiu em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um ataque de peste que assolava Lisboa; depois de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira do rei de boa memoria, e de ter gerado em seu ventre
...........quem governasse,
Quem augmentasse a terra mais que d’antes,
Inclyta geração, altos Infantes.
(Lusiadas—canto IV, est. 50.)