Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma caricia para lhe subjugar a vontade.
Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio que lhe transforme o lar em inferno intoleravel.
Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis peripecias a fallecer no exilio!
Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da dynastia d’Aviz.
A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram com todas as suas forças o objectivo da nova edade.
Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino. Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos amestrados já no valor da arte da guerra.
Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D. Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa companheira, teve a fraqueza de ceder.
Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao accrescimo do imperio.
D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de junho de 1443.
Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; mas não foi á côrte fallar ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a expedição. Era o que lhe valia.