Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da de Aragão.[19] Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia do reino a sua mulher.

A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a guerra civil.

Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte, que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba, alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e de esposa.

Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças, em logar de anjo de paz.

A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para fatalidade da Patria.

De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu apaixonado esposo.

Que a critica lhe seja leve.


D. Isabel de Lencastre
(MULHER DE D. AFFONSO V)