Uma vez descobriu no horisonte um forte almejado, um cachopo traiçoeiro que lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia que a fortalecia, com a confiança na sua força, com a lembrança do seu valor, inclina o rumo para o precipicio, que julga o digno remate da sua proficua derrota. Acompanham-n’a as alegrias, desfraldam-se alegres em seus mastros os vistosos pavilhões; sonhos dourados adormecem a tripulação, e, ao cabo de longa viagem pela campina maritima, o fado que outrora lhe proporcionou os louros, a arrasta agora para o iman da perdição, para a

.........................vã cubiça

d’esta vaidade a quem chamamos Fama.[38]

Tudo soffria as consequencias do mesmo genio audacioso que presidira a todas as nossas emprezas, desde Ourique e Aljubarrota até ás descobertas do mar, vasta arena das glorias de Portugal. Alcacerquibir vingou Ceuta, calcada aos pés do venerando roble d’Aviz. A Africa assim como foi berço da nobre epopeia portugueza, tambem foi seu tumulo, devorando o ultimo representante de D. João I. Não lhe satisfez o martyrio do infante D. Fernando; foi-lhe preciso aguilhoar um povo que ousára abater o vôo do estandarte mussulmano; e esse povo, estrangulado pela raiva da hyena africana, legava ao universo, a cujos destinos soubera presidir, uma chronica immortal da fenecida grandeza.

Camões e o seu poema foram os elos, que, abatidos os grilhões, haviam de reatar o passado ao futuro. Os Luziadas tornaram-se o manual em que oravam os crentes e os esperançosos; os que tinham por amante o alvorecer da sua independencia.

Nos sessenta annos de captiveiro, quantas lagrimas derramadas pela infidelidade dos traidores! Tantas como as que o vate sublime, synthese da autonomia portugueza, chorára pelo ninho seu paterno, e tambem por essa outra amante, a eleita da sua alma, cuja ingratidão lhe dictou estes versos:

Ah Nathercia cruel quem te desvia

Esse cuidado teu do meu cuidado?

Se tanto hei de penar desenganado,