Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento da independencia que animava um povo já consciente do seu existir, já apegado ao seu lar, unido desde o Minho ao Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o paiz succumbiu em Alcacerquibir. Houveram ensaios para um arremedo d’Aljubarrota, mas já não circulava aquelle sangue generoso e bom, tão forte na Edade Media, como valente e fidalgo no alvorecer da Renascença.

A India inundára-nos de ouro e sugava-nos as forças vitaes. Extenuado por essa amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos com a virilidade de outras eras.

Tudo estava podre. Até os proprios que tinham exaltado a bandeira das Quinas se deixaram arrastar pela corrente da corrupção. Reunidas as côrtes em Lisboa (de junho de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos para que o cardeal-rei escolhesse d’entre elles cinco governadores que indicassem a quem de direito, no futuro, pertencia o throno e que administrassem o reino dada a sua morte.

Realisado o funebre acontecimento (Almeirim, 31 de janeiro de 1580), o Prior do Crato, D. Antonio, bastardo do infante D. Luiz, pretendeu cingir a corôa, allegando um supposto casamento de seu pae com a famosa Violante Gomes; Rainuncio, principe de Parma, filho de D. Maria e neto do infante D. Duarte; Manuel Felisberto, duque de Saboya, filho da infanta D. Brites; Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina, duqueza de Bragança, filha do infante D. Duarte, concorreram tambem a disputar o throno.

Até Catharina de Médicis se lembrou de ser rainha de Portugal, dando como rasão uma ideada descendencia d’Affonso III e da condessa Mathilde! No meio dos successivos desastres, por entre tantas vilanias tecidas pelo ouro de Castella, espalhado largamente por D. Christovam de Moura, não faltou esta nota comica. Faltava, porém, o veridictum dos governadores, depositarios da realeza, juizes irrevogaveis que haviam de sentencear a quem pertencia a corôa.

No desempenho d’esta missão partiram para Badajoz, onde a 7 d’agosto de 1580 assignaram um alvará, conferindo a dignidade real a Filippe II.

Note-se, no entanto, que a entrega da Patria ao hespanhol foi recusada pelo Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e por D. João Tello de Menezes. Os outros (D. Francisco de Sá e Menezes, D. João de Mascarenhas—o defensor de Diu!—e Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se debaixo do manto castelhano, cuja sombra fortalecia, sem embargo da tranquillidade das delapidadas consciencias.

N’este desabar do edificio, desmantelou-se tambem a Casa das Rainhas; Alemquer serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres de Portalegre.

Achava-se, pois, desfeita a grande obra de Affonso Henriques, consolidada em 1385; e Portugal era uma nacionalidade morta, abatida pela extincção da grande dynastia que levou a sua fama aos confins do mundo. Era uma nau grandiosa, equipada brilhantemente, veloz como o vento e segura como a rocha, que atravessava o oceano em toda a sua vastidão, que sulcava os mares, rasgando-lhe altiva o verde anil.