De facto, a grande creança visionaria, a massa rude, com a sua alma leal e supersticiosa, impossibilitada de outro meio que aliviasse a pesada carga estrangeira, procurava nos dominios da phantasia um ephemero lenitivo aos seus pezares.

Para ella o ideal começou em D. Sebastião, uma especie de moura encantada, recolhida em paiz encoberto, mysterioso, sobrenatural, d’onde em momento opportuno, marcado no ceu com signaes temiveis, como os do fim do mundo, viria erguer o escudo lusitano, sobrepôr as Quinas aos Leões da usurpadora Hespanha.

E a phantasia, só a phantasia, é que consolava o povo, só a superstição é que lhe allumiava o espirito, fortalecendo-lh’o para a grande empreza, que recordou n’aquelles tempos de provecta decadencia o genio audacioso, valente e guerreiro da nação portugueza.

Ella ainda cortejava o vencedor, quando, arrogante e soberbo, percorria as ruas da capital; ainda se curvava quando ouvia nomear o rei o symbolo augusto que lhe fundára a nacionalidade e que combatêra a seu lado, na infancia da monarchia, pela defeza dos seus interesses, pela consolidação da sua existencia e da sua liberdade; mas n’este acto não se deprehende hypocrisia, fraqueza ou adulação: o que aqui se vê é quanto impera na alma popular o sentimento da realeza, com que foi creada desde tempos immemoriaes. Não era uma abdicação perante o hespanhol, era o invocar da alma leal para um principio que lhe gerára a Patria e que soubéra confundir-se com ella, tornando-se o coração d’um grande corpo, d’onde se expande a vida e a força por todo um paiz.

Se o duque de Bragança não quizesse annuir ás repetidas instancias dos fidalgos, e se em vista da recusa do principe se levasse a effeito aquelle celebre dito de D. João da Costa, antes uma republica bem portugueza que um rei estrangeiro, a independencia de Portugal, em nossa opinião, não ia ávante.

Faltava-lhe o ideal da alma popular, faltava-lhe o objecto d’esse amor, que, embora ás vezes fosse cruel como os Filippes, fosse traiçoeiro como D. Henrique, fosse efeminado como D. Fernando, fosse bom ou fosse mau, era o possuidor do espirito do povo, era o pae da independencia, gerada em Ourique e emancipada, feita homem e consciente no campo glorioso d’Aljubarrota. Acclamou a monarchia, João das Regras, um filho do povo, defenderam-n’a elles em todas as suas crises, abraçaram-n’a como religião desde o seu principio e sempre essa ideia innata ao seu existir palpitará em seu peito, como orgão que a natureza addicionou á sua alma tão leal como cavalheiresca.

E como a realeza era o symbolo da autonomia, por isso Castella vigiava o paço de Villa Viçosa temendo-se unicamente do direito como impulsor do brado heroico que havia de alijar para sempre o dominio estrangeiro.

E não conhecia a Hespanha o fraco animo do duque de Bragança? Conhecia, é certo, mas tambem conhecia o amor do povo a seu rei natural, e que esse mesmo, egoista e fraco, era quem se poderia atrever a romper os laços da usurpação. Para Villa Viçosa convergiam as attenções de Castella e as esperanças do paiz, a valente terra portugueza, que alimentava nas suas entranhas um vulcão cujas lavas submergiram radicalmente o dominio hespanhol.

As supplicas, quasi ameaças, dos fidalgos, decidiram o primeiro principe feudal de todas as nações latinas a cingir a corôa d’Affonso Henriques.

Elle era neto de D. Catharina, filho do infante D. Duarte, e por consequencia o unico representante portuguez d’el-rei D. Manuel.