D. Catharina, a gloriosa princeza a quem a Hespanha sempre respeitou, transmittiu pelo seu casamento á casa de Bragança os direitos ao throno de Portugal.[39]

D. Theodosio, seu digno filho, guardou a representação d’esses direitos com immaculada fidelidade, hombreando altivamente com Filippe III (II de Portugal) e obrigando o monarcha a descobrir-se perante o legitimo senhor do paiz a que vinha apossar-se.[40] Se D. Theodosio chegasse a reinar, certamente a historia lhe tributaria hoje egual homenagem á de D. João I; n’elle actuou toda a grandeza da raça d’Aviz, cujo sangue generoso lhe corria nas veias.

Do casamento de D. Theodosio com D. Anna de Velasco, filha do duque de Frias, houveram quatro filhos: D. João, duque de Barcellos, D. Duarte, o mallogrado infante, D. Catharina e D. Alexandre. Fallecido D. Theodosio (Villa Viçosa, 20 de novembro de 1630), entrou o duque de Barcellos na posse do vasto e poderoso Estado de Bragança, cuja capital, decorridos tres annos (12 de janeiro de 1633), se alegrava com o casamento de D. João II com sua prima D. Luiza de Gusmão, filha do duque de Medina-Sidonia, D. João Manuel Peres de Gusmão e da duqueza D. Joanna de Sandoval.

A velhaca politica d’Olivares fizera este enlace na esperança que a princeza, como hespanhola por nascimento, advogasse junto do marido a causa da sua terra natal; porém D. Luiza tinha a consciencia plena dos seus deveres para não se dominar pela vontade do ministro, que descançado na influencia da esposa de D. João e na crueldade de Miguel de Vasconcellos, nem sequer suspeitava que alguma vez deixasse de ser simples gemido dos afflictos prisioneiros o heroico brado de 1638.

Soou finalmente a hora da independencia (1 de dezembro de 1640). Era o sol da nossa epica grandeza que raiava por entre as nuvens da oppressão estrangeira. Luiza de Gusmão foi o primeiro satellite do grande astro, arrastando na sua orbita esposo e vassallos. Antes rainha uma hora que duqueza toda a vida, disse ella quando D. João lhe patenteou as suas hesitações. Espirito superior, não consentia que ninguem sobrepujasse o poderio adquirido logo que ligou os seus destinos aos do duque de Bragança. No throno foi a mesma cousa: dominava sempre o marido, era ella o rei, o poder que influia em todos os negocios do Estado, o braço que impediu a libertação do tão grande como desgraçado infante D. Duarte, a unica pessoa que se atrevia a desputar-lhe a confiança do monarcha. Tambem a Historia só lhe nota este defeito, porque de resto ella foi tão piedosa, como honesta, respeitavel e dedicada mãe de familia.

Depois do dominio castelhano, D. Luiza tomou posse dos bens da casa das Rainhas, sendo-lhe esta mercê feita por alvará dado em Lisboa aos 10 de janeiro de 1643.[41]

Os negocios do Estado em que o seu espirito ambicioso, a sua larga prudencia e sabio conselho a obrigaram a tomar parte, obstou a que se interessasse particularmente pelas terras de que era senhora; no emtanto, devem ellas vangloriar-se de tão alta princeza, cuja energia, cuja hombridade e independencia tanto favoreceu a causa do seu paiz adoptivo.

Morto D. João IV (6 de novembro de 1656), a rainha tomou as redeas do governo em nome de seu filho desventurado D. Affonso VI, até 1662, anno em que este monarcha se investiu de auctoridade real. D. Luiza desde então dedicou-se á piedade, curtindo os amargos desgostos que lhe dava o filho, que descia aos ultimos limites a que póde descer um homem.

Quatro annos durou esta turbulenta existencia que teve o seu fim a 27 de fevereiro de 1666, epocha em que falleceu, sendo o seu corpo sepultado no convento do Grillo, e, pela extincção d’este mosteiro, trasladado ha pouco para o pantheon real de S. Vicente de Fóra.

Decorridos mais de dois seculos, as cinzas da esposa de D. João IV, profanadas por mão ambiciosa como ella fôra em vida, vieram repousar junto do tumulo do marido e dos dois filhos que lhe succederam.