No tempo de D. Fernando, que fez da côrte um harem e do reino um brinquedo de Leonor Telles, o povo, depois de 1385, rejuvenesceu, mostrou-se forte e viril, epico mesmo; agora, estimulado pelo proceder heroico de 1640, não teve força para reagir contra os tramas do paço da Ribeira; cortejava, submisso, o regente e lamentava, condoido, o rei... Não houve um Fernão Vasques que intercedesse por Affonso VI, pelo vencedor das linhas de Elvas, do Ameixial, de Castello Rodrigo e de Montes Claros, deposto em nome da Patria que seu irmão mais tarde havia de arruinar n’um tratado inqualificavel. Apezar d’isso, o seu nome é hoje glorificado á luz da Historia, porque teve a leal amizade de um homem da estatura de Castello Melhor. No coração d’esse homem sempre existiu a soberania de Affonso VI; sendo mais valioso o seu imperio que o summo poder do infante, atordoado pelo remorso e azorragado pela voz da indigna consciencia. Recluso em Cintra, sujeito aos limites do seu aposento, perseguido da desgraça que purifica as almas, a razão filtrou-se-lhe no meio do infortunio. Deu depois provas de innegavel lucidez. E quando elle lançasse os olhos sobre os amores da mulher e do irmão e os visse meigos, risonhos, estreitando-se em amplo abraço, n’uma felicidade mahometana, celestial, havia de sorrir ferozmente, com o riso da vingança consoladora, porque veria a imagem d’um pobre, encarcerado, como elle era, percorrer as salas da regia vivenda e como punhal brandido pela mão do remorso, rasgar a tela d’uma apparente ventura. É que por mais infames que sejam as almas, sempre a consciencia como a percursora do castigo sem fim, as atormenta com a lembrança horripilante de crimes que se desejariam esquecer. Esta convicção e a lealdade de Castello Melhor foram os unicos lenitivos que Affonso VI encontrou na desgraça, foram anjos que lhe afagavam a vida, segredando-lhe que não era indigno de ser rei de um grande vassalo que resurgira um reino, e que a sua memoria servia de tufão devastador á felicidade roubada.
Felizes dos opprimidos quando têem a consciencia que são oppressores.
Affonso VI falleceu em Cintra aos 12 de setembro de 1683; a sua adultera esposa não tardou em seguil-o na jornada do tumulo.
Quatro mezes depois (27 de dezembro), succumbiu D. Maria Francisca Izabel de Saboya, sendo sepultada nas Francezinhas.
D. Maria Sophia de Neuburg
Depois da morte de D. Maria Francisca, a tristeza apossou-se do coração de D. Pedro II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe a consciencia, vendo sempre o espectro do irmão apontar-lhe do outro mundo o negro trama de que fôra o protagonista. Resava, orava, esmolava os desgraçados de que era rei; mas ao depor o obulo na mão do esfarrapado mendigo accudia-lhe o vulto de Affonso VI, que elle apeára do throno, transformando-lhe a existencia ainda em mais cruel que a do pobre, porque esse ao menos tinha liberdade. Entregue, como estava, ás suas dôres, D. Pedro não cuidava de outras nupcias.
Foram precisas para o arrancar á dorida memoria da sua fallecida consorte as instancias de Innocencio XI e as supplicas dos amigos: todos á uma lhe aconselhavam novo casamento, evitando-se assim que a corôa passasse á princeza D. Izabel, o que traria sérias complicações politicas.[42]