Hoje é licito analysar os feitos e acções do homem que ousou possuir a estima d’um povo. De facto, foi a personificação do caracter portuguez—aventureiro, valente, viril, com uns longes de justiceiro, um arremedo do seu homonymo[44]—; e se as suas virtudes não brilharam pela quantidade, o seu feitio compensou-lhe a falta perante os coévos acostumados a venerarem o rei, sem examinarem o merito do individuo. Entretanto, os soffrimentos que a Historia nos aponta e que lhe atormentaram os ultimos dias, se não conseguem absolvel-o de todo, attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal.

Moralmente foi um grande desgraçado, e a compaixão a que têem jus os infelizes é uma das faces sympathicas que o pincel do historiador ousa desenhar na téla da verdade. Teve o amor d’uma mulher, mas este facto não levanta o caracter de nenhum dos dois amantes, porque o amor santifica quando é licito e condemna quando é preverso.

Teve a fidelidade de uma resignada martyr que nunca lhe viu sorrisos, que foi possuida pela força da politica; e esta virtude se directamente o não exalta, reflecte-lhe, comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda mereceu a pósse de uma honesta esposa! Compassiva foi a Providencia, se no recondito d’aquella alma não existia algum merito que, qual violeta escondida por entre as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos.

Maria Sophia não lhe proporcionou dias felizes, porque o remorso lhe aniquilava toda a felicidade; não lhe partilhou os dias de gloria, porque a morte a veiu colher (4 de agosto de 1699) antes que a guerra lhe trouxesse os triumphos militares; mas hoje ajuda-lhe a rehabilitar o nome, o nome que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria.

Triste e só, viveu deixando na Historia não a reputação faustosa de heroica soberana, ou de astuta politica, mas a de mulher respeitavel que soube purificar o lar extinguindo-lhe as manchas do rasto da sua antecessora. O diadema não lhe serviu de cruz, porque no cumprimento dos seus deveres encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo de ambições, porque a corôa que o seu ideal almejava era a corôa de espinhos do Crucificado.

Que lhe importava o olhar melancholico do verdugo de Affonso VI, amante ainda do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava isso, se nos filhos d’esse homem que a não podia amar, se na prece quotidiana ao esposo das almas santificadas pela resignação existia um amor mais bello, mais radiante que todo o idyllio de um amor terreno? E as lagrimas, sêccas por essa philosophia santa, nunca lhe sulcaram o rosto sympathico. Foi feliz no meio do seu infortunio. Abençoada creatura cujas ambições não existiam n’este mundo. Bemdita a sua fé que lhe impediu o martyrio, que lhe encaminhou os passos para a senda do dever. Por isso a Historia ajoelha na lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide um epitaphio modesto como a sua existencia, mas venerando como a sua memoria.[45]


D. Marianna d’Austria