D. Marianna de Bourbon odiava-o e quando D. José se viu prostrado pela doença e lhe entregou (29 de dezembro de 1776) as redeas do governo, o poderio do ministro foi descendo gradualmente. Mandado retirar da camara do seu agonisante amo, dispensado das funcções de mordomo-mór, que exercia, o marquez politicamente succumbiu tambem quando D. José, cuja morte teve logar a 24 de fevereiro de 1777. Subindo ao throno D. Maria I, começaram as represalias contra Pombal, para o que a viuva influiu bastante perante sua filha. Conhecedor do novo terreno, o ministro demittiu-se, recebeu a commenda de S. Thiago de Lanhoso, e ordem de desterro para a terra que lhe servia de titulo, onde falleceu aos 8 de maio de 1782. Este acto de D. Marianna Victoria de Bourbon foi o seu unico acto politico que a Historia nos aponta. Durante a sua vida, occupou-se unicamente na lide domestica e em conciliar as rixas entre Portugal e Hespanha, que deram motivo á guerra de 1762-63. No mais, foi alheia aos negocios do Estado, e só a perseguição ao marquez de Pombal é que poderá tornar o seu nome pouco sympathico para muitos, cujo idolo é o grande estadista do seculo XVIII.
Notaremos que as duas pessoas que mais influiram no banimento do ministro, ambas tiveram um fim desgraçado.
D. Marianna de Bourbon, inchada, hydropica, n’uma agonia cruciante, falleceu no paço d’Ajuda, em 15 de janeiro de 1781. D. Maria I, essa viu-se doida e fugitiva em estranhos hemispherios. Ignorante de que tinha vencido o primeiro soldado d’este seculo, a herdeira de D. José falleceu no Rio de Janeiro, aos 20 de março de 1816.
Apesar de todas as circumstancias, esta soberana, no que diz respeito a Pombal, reconheceu os serviços do estadista, condemnando as demasias do vingador.
Aquella mulher, attribulada por tanto crime, junto a tanto beneficio; a tanta compaixão pelos desgraçados e a tanto respeito pela memoria do pae, viu-se nas trevas da loucura que foram fataes a ella e a Portugal.
Que D. Maria I tomou a serio o seu cargo, ninguem o contesta. As medidas uteis dos primeiros tempos do seu governo não mostram unicamente o tino dos ministros (conde da Barca e Martinho de Mello e Castro), mas tambem o são criterio e boa vontade da rainha, tão desgraçada, quão digna, pelo seu caracter, de mais prosperas venturas e de mais explendorosos fins.
Aqui termino o meu trabalho, não me querendo constituir em juiz de personagens contemporaneos, aggravar feridas ainda mal saradas, remexer muito episodio que já está olvidado. Comtudo, se algum dia, amansadas mais as furias partidarias, alguem julgar util o meu concurso, procurarei satisfazel-o, seguindo a mesma orientação—a imparcialidade e a independencia.
O que está feito obedece a um impulso natural, a uma tendencia irresistivel para o estudo da Historia patria; não foi a politica, que puz de parte, nem o interesse, que é nullo. Se assim fosse e me visse obrigado a sacrificar o proprio sentir a inspirações alheias, a consciencia vergar-me-hia hoje sob o peso do remorso de ter prostituido a penna. Tal não aconteceu, e embora não conseguisse triumphos litterarios que nunca se acastellaram na minha phantasia, sinto-me satisfeito de ter exposto o que me domina o espirito, o fructo de longo estudo e de concisa meditação.