NOTAS E DOCUMENTOS


O fallecimento de D. Beatriz de Gusmão

O Visconde de Figanière na sua obra Memorias das Rainhas de Portugal (D. Theresa—Santa Izabel) diz que a ultima noticia que existe d’esta soberana é a doação de 300 libras, á sua creada Maria Nunes, para lhe comprar uma herdade que por morte da dita Maria Nunes devia pertencer ão mosteiro d’Almoster. Como esta carta é datada de Torres de Vedras, 30 de julho de 1300, e a rainha falleceu oito dias depois, é licito suppor-se, como Figanière suppõe, que a morte teve logar na citada villa.

Frei Antonio de Falla, da ordem dos pregadores, escreveu por mandado d’el-rei D. Sebastião, uma Relaçam dos Reys e Raynhas que estam sepultados em Alcobaça; n’ella se lê este notavel depoimento do mesmo frade, que diz respeito á segunda mulher d’Affonso III:

«Eu a vi na Era mil e quinhentos e sessenta e nove, o primeiro dia d’Agosto, e jaz inteira como aquella hora que ali a sepultáram, jaz mirrada segundo parece, a roupa com que foi sepultada esta como aquelle dia que ali a puzeram, ao menos o lançol, que a colcha que tem debaixo do lançol estava algum tanto damnificada, e ja pode ser que o fosse ao tempo que ali a lançaram; como quer que seja, nam esta tão inteira, e fresca como o lançol; jaz enfeitada, e a cabeça apertada; tem huns cabellos castanhos que parece que foram formosos, mostra que foram cortados estando doente, porque estam em huma parte mais compridos que na outra, e estam mal cortados; tem hum lenço na cabeça sobre os cabellos assaz nouo; tem calçadas humas çapatas pretas apantufadas, como naquella hora que lhas calçaram, do pé ainda estam quasi justos ao menos do comprimento; finalmente ella parece ser reuerenda mulher em seu tempo. Algus dizem que ella tinha hum rabo, e que vinha por parte da may, de huma casta que em Castella naciam com rabos. Dizem que S. Bernardo lhe tirou este rabo, e mostrão hum manto que ella lhe deu por isso. O manto eu o vi, mas se foi dado por isso, ou nam, nam o acho escrito, nem menos que ella tivesse rabo mais que affirmaremme pessoas lidas nestas historias, que o lêram, que se chamava a Raynha rabuda: ao menos ella agora nam tem sinal disto, porque não faltou fazer sobre isso diligencias para saber a verdade disto. E desta maneira que tenho escripto jaz esperando sêr chamada. Prazerá ao Senhor que seja para gloria sua, porque esta Rainha fez n’este Reino muito boas obras, e teue fama de mui santa, e deuota, e affeiçoada á Religiam Christã.»

Fr. Francisco Brandão na Monarchia Lusitana e Figanière na obra acima citada, concordam que a origem d’esta lenda provêm da rainha ter introduzido em Portugal a moda das cotas caudatas, ou de rabo.