TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR

NO ROMANCE COM FÓRMA ERUDITA NOS FINS DO SECULO XVI

Não se póde conhecer a litteratura portugueza, ignorando o movimento das litteraturas da edade media da Europa; como a formaçao das linguas, do direito, da religião e das instituições sociaes, nenhum facto faz sentir tanto como a litteratura a unidade da grande raça neo-latina. Quasi todas as phases porque passaram as litteraturas italiana, franceza, hespanhola ou provençal, quer na fórma das primeiras poesias, nas novellas cavalheirescas, nas chronicas, ou nos contos decameronicos, no romance popular, ou no sentimento da natureza despertado pela Renascença, tudo, tudo, abertamente o sustentamos, se encontra na litteratura portuguesa.

Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua gaguez pelo canto; em Portugal, os primeiros monumentos linguisticos que apparecem são essas canções do seculo XII e XIII que os criticos não tem sabido avaliar. Foi a poesia do povo, longo tempo desprezada pelas côrtes provençaes, que os livreiros mercenarios dos principios do seculo XVI atiraram ao vulgo, recolhida em folhas volantes.

Foi assim que d'estas folhas dispersas se formaram os primeiros Romanceiros; Esteban de Najera, Martin Nucio, Andres de Villalta e Pedro de Flores juntaram os romances que andavam discarriados. A Silva de varios romances, de 1550, assignala a épocha da grande vulgarisação dos romances populares da Peninsula, que, ainda assim, para serem acceitos depois de colligidos, precisaram de se arreiar com o titulo de Cancioneiro, então preconisado pelo gosto erudito e provençalesco. Por este tempo o Cancionero de Romances é reimpresso em Portugal, sendo a maior parte dos romances que cita já conhecida de Gil Vicente, e por conseguinte do povo portuguez. O Romancero do Cid de Escobar e a Primavera e Flor de Romances reproduziram-se tambem nos prelos portuguezes. O romance popular, simples de condição, franco, rude, tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não sabia abstrahir, dramatisava, accumulava as situações. Fôra preciso um genio superior para comprehender-lhe a ingenuidade profunda. Lope de Vega foi um dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar que o metro octosyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos, e pôz em fórma de romance os passos dolorosissimos da Paixão. Após elle seguiu-se a turba dos poetas; Juan de la Cueba, Garci Sanches, Lasso de la Vega, Segura, Timoneda vão reduzindo á fórma de romance todas as historias do mundo, desde a Biblia e historia da Grecia e Roma até aos Chronicons monasticos. O romance achou-se d'este modo despido da sua natural sencillez; tornaram-no declamador, quando elle mal sabia titubear, e se repetia nas grandes emoções; fizeram-no descriptivo, com uma abstracção subjectiva, que o desnaturava. D'esta degeneração inevitavel nasceram os romances mouriscos, que estafaram o gosto com tanta Zaida y Adalifa, como se queixa o Romancero General. O poema de Gaia de João Vaz, de Evora, pertence a esta épocha, e é um precioso monumento que assignal-a na litteratura portugueza esta transformação. O romance popular, perdendo o genio rude, perdêra a fórma octosyllabica, ia tomando a fórma heroica da outava academica, como o poema de Roncesvalles de Balbuena.

Tornaram-se os romances do povo um pretexto para as glosas dos poetas palacianos, que se serviam dos motes mais celebres para as suas galanterias.

No Cancioneiro Geral sómente se encontra com fórma de romance umas trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que principiam:

Eu era moça menina
per nome dona Inez, etc.[1]

'Neste tempo a fórma do romance popular tinha sido despresada completamente; na colleção de romances antigos, feita em Anvers em 1550, encontramos o titulo de Cancionero de Romances, em que a palavra Cancioneiro se emprega para proteger com o valor que tinha a rudeza da tradição oral. No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, sómente se encontra o rymance:

Tyempo bueno, tempo bueno, etc.[2]