Este romance é uma imitação dos dous celebres romances conservados no Cancioneiro General de 1557: Fonte frida, fonte frida, e Rosa fresca, rosa fresca, muitas e muitas vezes glosados pelos poetos palacianos. O romance do Tyempo bueno, é algum troço conservado por causa da glosa que lhe fez Garcia de Resende. 'Neste tempo o renascimento das Canções provençaes distrahia os serões das principaes côrtes da Europa.
O romance popular era antigo e invariavel; não se prestava a perpetuar as anecdotas e pequenas intrigas palacianas. Então começaram os poetas cultistas a glosar os romances mais celebres da tradição. Na Poetica Española de Rengifo, publicada em 1592 (cap. XXXVIII), se lê: «No ha muchos años, que comẽçaron nuestros Poetas a glosar Romances viejos, metiendo cada dos versos en la segũda de las Redondillas. Y han sido tan bien recebidas estas Glossas, que les han dado los musicos muchas sonadas, y se cantan, y oyen com particular gusto.» O que refere Rengifo encontramol-o confirmado no Cancionero Geral de 1511, conhecido em Portugal, por isso que d'elle encontramos traduzidas por Frei João Claro, monge de Alcobaça, a Paraphrase do Padre Nosso, da Ave Maria e do Te Deum laudamus de Hernam Peres de Gusman, que se podem ver nos Ineditos de Alcobaça de Frei Fortunato de Sam Boaventura[3]. O romance da Bella mal maridada era glosado com predilecção pelos nossos Quinhentistas. Bernardim Ribeiro glosou o romance de Durandarte, aonde começa Oh Belarma, oh Belarma, já glosado até ao decimo verso no Cancionero de Ixar, fol. 138, e d'ahi por diante tirado da Floresta de romances[4].
A todas estas causas de decadencia e transformação accresceu a prohibição das folhas volantes pelo Index Expurgatorio de 1581.
Como Sepulveda, que tirava os seus romances das chronicas hespanholas, João Vaz, completou a tradição dos amores de Gaia por algum documento escripto. Qual elle fosse ninguem o póde asseverar. É certo que se encontra a narração d'esses amores com esta fórma graciosa no Livro velho das Linhagens: «e este rey D. Ramiro se vê casado com huma rainha, e fege n'elle rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão que era mouro, e foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Mayer: entom era rey Ramiro nas Asturias; e quando Abencadão tornou adusea para Gaia, que era seu castello, e quando veo rey Ramiro não achou a sa molher e pesoulhe eude muito, e emviou por seu filho D. Ordonho e por seus vassallos, e fretou saas naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar a Sanhoane da Furada; e pois que a nave entrou pela foz cobriua de panos verdes, em tal guiza que cuidassem que erão ramos, cá entonce Douro era cuberto de huma parte e da outra darvores; e esse rey Ramiro vestiose em panos de veleto, e levou consigo sa espada, e seu corno, e falou com seu filho e com os seus vassallos que quando ouvissem o seu corno que todos lhe acorressem, e que todos juvecem pela ribeira per antre as arvores, fóra poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice estar a huma fonte que estava perto do castello; e Abencadão era fóra do castello, e fora correr seu monte contra Alfão; e huma donzela que servia a rainha levantouce pela menhã que lhe fosse pela agoa para as mãos; e aquella donzela havia nome Ortiga; e ella na fonte achou iazendo rey Ramiro, e nem o conheceo, e el pediolhe dagoa pela aravia, e ella deulha por hum antre, e el meteo hum camafeo na boca, o qual camafeo havia partido com sa molher a rainha pela meadade; el deose a beber, e deitou o anel no antre, e a donzella foice, e deo agoa á rainha, e cahiolhe o anel na mão, e conheceu ella logo; a rainha perguntou quem achara na fonte; ella respondeu qua não era hi ninguem: ella dice que mentia, e que lhe non negace, ca lhe faria por onde bem, e mercê; e a donzela lhe dice enton que achara hum mouro doente e lazarado, e que lhe pedira dagoa que bebece, e ella que lha dera; e entonce lhe dice a rainha que lhe foce por el, e se o hi achasse que lho adusese. A donzela foi por el, e dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha que fosse a ella; e entonces rey Ramiro foise com ella; e el entrando pela porta do paço conheceo-o a rainha, e dicelhe—«Rey Ramiro quem te aduse aqui?»—E el lhe respondeu—«ca o teu amor»—: e ella lhe dice que vinha a morrer, e el lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice á donzela que o metese na camara, e que lhe não dese que comece, nem que bebece; e a donzela pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou Abencadão e derãolhe que jantace, e despois de jantar foice para a rainha; e desque fizerão seu plazer, dice a rainha—«se tu aqui tivesses rey Ramiro, que lhe farias?» O mouro então respondeo—«o que el a mi faria: matal-o.» Então a rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e ella assim o fez, e aduseo ante o mouro, e o mouro lhe disse—«es tu rey Ramiro?»—e elle respondeo—«eu sou»—e o mouro lhe perguntou—«a que vieste aqui?»—elrey Ramiro lhe disse entom—«vim ver minha molher que me filhaste a torto; ca tu havias comigo tregoas, e nom me catava de ti»—e o mouro lhe disse «vieste a morrer; mas querote perguntar: se me tiveces em Mier que morte me darias?»—Elrey Ramiro era muito faminto e respondeolhe assim—«eu te daria um capão assado e huma regueifa, e fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa (copa?) chea de vinho que bebesses: em cima abrira portas do meu curral, e faria chamar todas as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um padrão, e fariate tanger o corno, até que te hi sahice o folego.»—Então respondeo Abencadão—«essa morte te quero eu dar.»—E fez abrir os curraes, e fezes sobir em um padrão que hi entom estava; e começou rey Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sua gente pelo corno que lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como ouvio, acorreolhe com seus vassallos, e meterãose pela porta do castello, e el deceuse do padron adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da bainha, e descabeçando atá o menor mouro que havia em Gaia, andarão todos á espada, e nom ficou em essa villa de Gaia pedra sobre pedra que tudo nãa fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e quanto haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora amarrarão as barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramiro deitouce a dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas della caerão a D. Ramiro pelo rostro, e el espertouse, e disselhe, porque chorava, e ella disselhe—«choro por o mui bom mouro que mataste»—e então o filho que andava hi na nave ouvio aquella palavra que sa madre dissera, e disse ao padre—«padre não levemos comnosco mais o demo»—Entom rey Ramiro filhou uma mó que trazia na nave, e ligoulha na garganta, e anchorouha no mar, e dês aquella hora chamarão hi Foz d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa corte, e contoulhe tudo como lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou com ella, e louvoulho toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege nella hum filho, e quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom o padre, que lhe punha este nome por que seria padre e senhor de muito boa fidalguia; e morreo rey D. Ramyro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in pace[5].
[1] Fol. 221.
[2] Cancion. Geral, fol. 217.
[3] Vid. o meu Cancioneiro popular, pag. 31-39; notas, pag. 204.
[4] A edição da Bibliotheca Portugueza é detestavel; desconheceu a celebre edição de Ferrara, e atribue a Bernardim Ribeiro a pag. 363 um soneto de Gongora, fazendo-o auctor do romance de Durandarte das velhas colleções hespanholas.
[5] Mon. hist., II Scriptores, pag. 180-181. Esta mesma legenda se encontra no Livro das linhagens do Conde Dom Pedro (Mon. Hist., ibid. pag. 274-277) com algumas variantes na acção.
Aqui agradecemos ao illustre philologo, o Sr. Dr. Pereira Caldas, a valiosa offerta do unico exemplar conhecido do romance de Gaia, de que nos servimos para a presente edição.