Parti no dia 10 de setembro, mas os carregadores e guias, em logar de me levarem directamente ao Aruenha, ou, o que a isso teria equivalido, pelo caminho que trouxe na volta, indicado no mappa, o que apenas atravessa a ponta não habitada da terra de Guessa, comprehendida entre o Caurese e o Aruenha, talvez com a idea de encurtar duas ou tres horas de serviço, levaram-me por caminho um pouco mais ao sul, que me conduziu ao Caurese em altura tal que, ao atravessar o rio, me achei de surpreza junto á aringa de um capitão do Caterere chamado Bonga.

Rio Caurese. O Caurese tem aqui uns 50 metros de largo e excellente agua com approximadamente uma altura media de 1 metro em toda a largura do leito que é de areia. Tem porém de espaço a espaço grandes rochas, e o rio até á foz é absolutamento improprio para a navegação. Vi-o na estiagem e tendo havido grande secca. No tempo das chuvas engrossa muito, e mesmo em seguida a um só dia de grande chuva não dá passagem a vau.

Foi no dia 11 de setembro que cheguei á aringa do Bonga. Os carregadores de Tumbura, a quem eu nada tinha que dar de comer, não podendo por preço algum comprar-lhes mantimento, voltaram para trás, ficando em um acampamento junto á aringa com os motores (cargas) e os meus muleques.

Como era de esperar, o chefe da aringa, logo que eu passei por ella, e não me achava em condições de seguir com os carregadores que trouxe do Barue, não me facilitou a marcha, para diante, apesar de eu lhe dizer que ia só até Inhachiranga para ahi esperar o capitão que devia preceder-me na visita que eu desejava fazer ao Caterere, o instou muito para que não saisse de Guessa sem primeiro ir visitar o mambo. Vi-me assim moralmente obrigado a ir á povoação do Caterere, para onde parti no dia 12, seguindo o caminho indicado no mappa.

Visita ao Caterere. Tendo, ao chegar proximo da povoação na tarde do dia 13, feito avisar o mambo da minha visita, cheguei na madrugada do dia 14 á{6} aringa que se chama de Inharichinga. A primeira entrevista com o mambo Caterere ou Gutuqui, foi logo muito cordial. Dei-lhe alguns presentes de pouco volume e peso que commigo tinha levado, como colares de coral, espelhos, barretes, camisas, pannos ricos, explicando-lhe que só ali me achava para satisfazer aos desejos do seu capitão Bonga, pois desejava ter sido precedido por um capitão de Manuel Antonio, que trazia um bom presente de fazendas e um recado de amisade de seu amo. Por varias vezes Caterere me disse que Manuel Antonio lhe viria fazer guerra, e que o trataria como tratou ao Macombe, rei do Barue. Procurei fazer desapparecer esta idéa, repetindo-lhe que pelo contrario Manuel Antonio lhe mandava um presente de amisade, e explicando-lhe que o Rei de quem Manuel Antonio era subdito, não queria guerra, mas amisade, não só com Caterere, como com todos os regulos visinhos, e que para estreitar relações de amisade eu a todos tencionava visitar. Durante o dia fez-me Caterere repetidas visitas á palhota onde fiquei, e aconselhou-me a que, em logar de ir para Inhachiranga na margem esquerda do Aruenha, fosse para uma povoação de um Camunda, na margem direita e portanto ainda da terra de Caterere, podendo eu d'ahi ir ver os logares proximos onde gentes de Guessa e das terras vizinhas costumam lavar ouro.

Levava commigo uma das armas Winchester express pertencentes ao districto de Manica. O mambo quando a viu pediu-me para lh'a explicar, e como estas armas são muito certeiras e permittem um tiro muito rapido, fiz da porta da aringa, em seguida e em differentes direcções, fogo contra delgados troncos de arvores a grandes distancias, ficando o mambo muito admirado quando foi junto ás arvores ver o resultado dos tiros. Cito esta circumstancia para acrescentar que, apesar de eu ter ido só com tres muleques e estar morando na aringa, vieram pouco depois dizer ao mambo que a gente das proximas povoações tinha fugido ao ouvir os tiros, suppondo que era guerra!

A aringa do Caterere é pequena, e muito fracamente construida; tem proximo uns montes de rochas que a commandam completamente.

Com as repetidas perguntas que a varios fiz a respeito da passagem de Mauch por estas terras, ha uns vinte annos, convenci-me que ninguem tem idéa d'este viajante.

A latitude de 17° 30' 30", que achei para esta aringa, concorda com a posição em que Mauch a poz na sua carta.

Não parece que o paiz tenha sido visitado por estrangeiros, e não conhece esta gente senão Tete, Sena e sobretudo o nome de Gouveia. Empregam varias palavras portuguezas. Estranhei ouvir-lhes dizer quando fallavam commigo: senhor, pois que os nossos pretos nas cidades, e os proprios brancos fallando de outro branco com os pretos, fazem uso da palavra mosungo.