Não vi entrar preto algum na minha palhota ou na do mambo sem que primeiro dissesse: licença, palavra que parece de uso commum, não só em Guessa, como nas outras terras onde depois estive.
Recebi do Caterere muitas informações ácerca dos mambos e campos de oiro que me ficavam para a frente; soube tambem que da aringa{7} a Manica são cinco dias de caminho, havendo apenas entre as duas terras a de Munhama, que se atravessa em dois dias. Não se passa pelo Aruangua, o que prova que este rio nasce a leste do caminho seguido.
Não consentiu o mambo que eu partisse sem ser seu hospede durante uma noite. Na madrugada do dia 15 voltei ao meu acampamento no Caurese, onde cheguei na manhã seguinte; vindo com um grande do mambo, que me acompanhou para communicar as ordens do Caterere e facilitar o transporte das cargas para a margem do Aruenha.
Partida do Caurese para o Aruenha ou antes Quenha. No dia 17 parti de junto da aringa do Bonga para a margem do Aruenha, onde cheguei, com duas horas de passeio junto á aringa de Camunda, pequena povoação rodeada de fraca estacaria, fazendo o acampamento a jusante d'esta aringa.
O rio tem aqui uns 100 metros de largura, mas a agua corre por varios braços serpenteando na areia, não cobrindo todo o leito. Informaram-me de que o rio, bastante ainda para jusante da foz do Caurese, tem varias rochas que lhe atravessam o leito; penso porém, que será navegavel vindo do Zambeze até pelo menos á affluencia do rio Mazoc. Rio Aruenha ou antes Luenha. Já nas minhas viagens pelo Zambeze para Tete, tinha notado que os pretos chamam Luenha ao rio que em as nossas cartas chamamos Aruenha, e que afflue no Zambeze em Massangano, onde está construida a celebre e vergonhosa aringa do Inhaúde ou do Bonga. No mappa do Levingstone tambem este rio tem o nome de Luenya. É tambem Luenha o unico nome que agora lhe ouvi dar, e parece-me preferivel adoptar esta designação, não só por ser a verdadeira, mas porque melhor se distingue de Aruangua; e são dois nomes que como rios ou commandos militares do districto de Manica muitas vezes haverá a citar reunidos.
Ouro no Luenha. Nos dias 18 e 19 fui com gente da povoação de Camunda, ver os logares onde costumam lavar oiro no rio. Os terrenos em que n'esta altura corre o Luenha não são auriferos, e o oiro só se encontra, renovado todos os annos depois das cheias, nas pequenas porções de areia que fica retida entre as grandes rochas que atravessam o rio. Os pretos e pretas, que lavam admiravelmente com a batea, podem com utilidade extrahir o oiro que cada anno é retido nos mesmos logares, e assim o fazem ha seculos, mas o lavar estas areias, por causa da sua pequena quantidade, embora sejam relativamente ricas, nunca poderia pagar a uma companhia europêa. É muito provavel que no proprio leito, atraz d'estas barras, onde ha profundidade de agua e onde os pretos nunca lavam, haja accumulado de ha seculos oiro mais grosso, e quando o paiz esteja frequentado pelos brancos, é provavel que venha a proceder-se a trabalhos n'estes logares com bons resultados, mas é claro que a pesquiza do oiro para os que primeiro cheguem será muito mais interessante nos proprios terrenos d'onde o oiro é annualmente arrancado e arrastado pelas aguas.
Rio Mupa. Na visita que fiz á Massanga, ou foz do Caurese vi que o rio Mupa não é um affluente do Caurese como está marcado na carta de Mauch mas, um pouco mais abaixo, directamente affluente do Luenha.{8}
Mambo Schomali de Mauch. Descobri, emquanto estava n'este acampamento do Luenha, quem era o mambo Schomali, que Mauch cita como sendo o chefe das terras que constituem a parte mais rica dos Campos do Imperador Guilherme.
É um pequeno mambo da terra de Macaha, chamado Machamare. Já de ha muito tinha conhecimento do nome da terra e de outros nomes do mambo, que tambem se chama Chibinda e Inhaúbinda. Serviu-me de confirmação á equivalencia entre o nome de Machamare e o de Schomali o encontrar nos dois rios Inhamussice e Munhoque, dois rios auriferos da terra de Macaha, os equivalentes aos rios Iantsitsi e Noke da carta de Mauch. Achei interessante que os pretos que lavavam n'um logar ou barra do Luenha chamado Biriuide, me dissessem, que todo o oiro que até ali chegava era proveniente do rio Inhamussice, precisando a proveniencia do oiro, quando o Luenha no seu vasto curso drena um paiz muito extenso e recebe muitos outros affluentes. Por esta indicação é de suppôr que as areias do Luenha acima da affluencia do Inhamussice não tenham oiro algum, tornando evidente que é por este affluente que os diggers devem subir nas suas pesquizas.
Pouco depois de chegar a este acampamento do Luenha, vi que nada me aconselhava a que ahi me demorasse e procurei arranjar carregadores para continuar na viagem.