Chegada do capitão Bastião e de Gurupira. No dia 19 de setembro, com o capitão Bastião, de Manuel Antonio, encarregado dos presentes para o Caterere, chegou ao acampamento vindo de Gouveia, onde tinha ido visitar Manuel Antonio, o filho grande do mambo Motoco, chefe relativamente poderoso da terra da Builha, situada alem, a sudoeste, da região a que Mauch deu o nome do seu imperador. Como não via possibilidade de achar, no logar onde estava, carregadores, e me constasse que na terra de Motoco e terras proximas havia algum mantimento, pedi a este filho do Motoco, chamado Gurupira, que me mandasse os necessarios carregadores e que acompanhasse um dos meus muleques, a quem entreguei fazendas, na compra de mantimento que deveria ser mandado para a terra de Macaha. Gurupira disse-me que elle era justamente casado com uma filha do mambo Machamare, deu-me informações sobre a Macaha e indicou-me a povoação de Chibanda, filho do mambo, situada na ponta de terra entre o Inhamussice e o seu affluente Munhague, como bom logar para acampamento, e foi para ahi que combinamos eu partiria, e seria mandado o mantimento que fosse comprado.
Na tarde do dia 22 apareceram-me no acampamento uns cem homens armados, seguidos por um pandoro ou leão.
Pandoros. Os pandoros, que eu já tinha visto nas terras do districto de Tete, que ha no Mazoe, que havia no reino do Barue e que ha nas terras de todos os pequenos mambos d'esta região, são uns homens, que se escondem de vez em quando dizendo que vão para o mato e se transformam em leões, que mesmo quando se acham na fórma de homens estão quasi sempre a rugir, e que vivem á custa dos mambos e dos povos impondo-se-lhes como entes sobrenaturaes. Os mambos nada fazem sem os consultar. A superstição com os pandoros em Tete communica-se aos musungos mulatos e mesmo á gente da India que n'elles{9} chegam a acreditar. O Inhaúde e o Bonga das nossas desgraçadas guerras, apesar de homens muito intelligentes em outras cousas, nada faziam sem consultar os pandoros. Ás vezes os pandoros são mulheres. Ha n'uma terra da margem esquerda do Mazoe, em logar onde já estive partindo de Tete, uma celebre Clara, pandoro de grande fama e julgo que conselheiro muito attendido pelo Bonga.
Extorsões pelo pandoro e grandes do Caterere. Os grandes do Caterere que vieram com o pandoro, nenhum dos quaes eu tinha visto na aringa do mambo, disseram que eu era amigo de Gouveia, que vinha para os enganar e fazer-lhes guerra, que devia voltar para trás e não tornar a esta terra. Mostrei-lhes admiração de que tal dissessem quando eu tinha ido visitar o seu mambo como amigo e como amigo tinha por elle sido recebido; que elles já sabiam que o que eu queria era seguir para diante, que elles estavam fechando os caminhos, o que lhes trazia difficuldades no futuro, e que se a gente que ali estava me quizesse levar as cargas para Macaha eu lhes pagaria como a carregadores e daria ao pandoro e aos grandes alguns presentes. Foi provavelmente para receber estes presentes que pandoro e grandes vieram, quando constou que desejava saír da terra d'elles. Acceitaram a proposta e começaram depois com successivos pedidos. Tendo eu dado alguma cousa ao pandoro, pediram para os grandes, depois para a outra gente, depois mais alguma cousa por eu ter feito barracas.
Desejando eu sobretudo ir para diante e servir-me d'esta gente como carregadores, fui cedendo a todas as extorsões, cuja importancia total foi de facto insignificante, mas que pela maneira como foram feitas justificam a futura occupação da terra de Guerere. Toda a noite, uma esplendida noite de luar, tiveram batuque e adormeci ao som das cantigas, cujas phrases mais repetidas eram que haviam de cortar-me a cabeça, a de Manuel Antonio e a de um homem d'esta terra que tinha entrado ao meu serviço.
Da povoação de Camunda ao Rupire. Na madrugada do dia 23 paguei aos carregadores, dizendo-lhes que era para irem até á povoação de Chibanda na Macaha, mas pouco depois começaram a dizer que só iriam até ao Rupire, cousa commum de succeder em Africa com os carregadores, mesmo em outras circumstancias.
Atravessei o Luenha e segui na direcção que mostra a carta pela terra de Inhachiranga sem passar por povoação alguma, até ao rio Inhamatoque, limite de Inhachiranga e do Rupire, onde os carregadores largaram as cargas, voltando logo para a sua terra.
Logo que cheguei ao Inhamatoque mandei chamar gente do Rupire, mas só no dia 26 é que tive os necessarios carregadores e parti para junto da povoação do mambo d'esta terra.
Mambo Chiquiso. Ao mambo do Rupire, chamado Chiquiso, disse que só para o visitar e lhe dar alguns presentes é que eu tinha vindo á povoação d'elle, em logar de seguir ao longo do Luenha até á Macaha, mas que era para a povoação de Chibanda n'esta terra que eu me dirigia. Por varias formalidades com o mambo, e com os pandoros que no Rupire são tres, e para fazer excursões a alguns rios onde lavam oiro, demorei-me no Rupire, e comquanto o meu projecto fosse seguir para Macaha, como esta terra é talvez a mais pequena e menos povoada de todas{10} as d'esta região, e como fui successivamente reconhecendo a importancia da posição do Rupire e quanto seria preferivel crear uma estação civilisadora portugueza n'esta terra, achei conveniente ceder aos pedidos que me faziam de não seguir para diante, até lançar bases de uma estação que mais tarde iria exercendo a sua acção sobre os mambos e povos das terras vizinhas. É no Rupire que antigamente acampavam negociantes brancos de Tete e mesmo de Quelimane, para compra de oiro e marfim que os pretos das terras vizinhas vinham trocar por fazendas, e effectivamente, durante os tempos que eu mesmo ali fiquei, todos os dias chegavam ao acampamento muitos pretos com canudos de pennas cheias de pó de oiro para trocar por fazendas. Tinha eu combinado com o mambo que seria junto á foz do Inhamussice que eu faria o meu acampamento e as primeiras construcções, base da futura estação civilisadora e commercial, mas as povoações do Rupire estão todas nas proximidades e em torno da aringa do mambo, e as margens do Inhamussice não estão actualmente habitadas. Vendo que muitos dos grandes se mostravam desconfiados por eu querer ir fazer o acampamento n'um sitio isolado, tive que abandonar a idéa de ir para o Inhamussice e que me decidir a escolher um terreno n'uma elevação nas proximidades da aringa do mambo.
Pela prolongada falta de chuvas, a agua nos differentes riachos que cortam o paiz tinha deixado de correr, e a melhor que encontrei, extrahida de uma poça, era leitosa e de muito mau sabor. Foi o uso d'esta repugnante agua de certo a causa dos soffrimentos de baço que depois tive, mas a tudo me sujeitava para realisar a fundação da estação do Rupire, que, embora me propozesse fazer varias excursões na Macaha e outros paizes proximos, não mais tencionava abandonar senão quando de Portugal fosse mandado alguem para tomar conta d'esta estação.