Paguei ao mambo e aos pandoros tudo o que elles quizeram pelo direito de chamar minha uma porção do terreno, e dei começo a algumas construcções.

Desconfiança da gente do Rupire. Apesar das boas relações que logo de principio fiquei tendo com o mambo, o enorme ciume que estes pequenos chefes têem uns dos outros, e sobretudo a desconfiança que no Rupire como em Guessa tinham das más inteuções de Manuel Antonio contra estas terras davam quasi diariamente motivo a alvoroço e á reunião em conselho dos pandoros e grandes na aringa.

Se eu tivesse chegado ao Rupire vindo de Tete achariam muito natural a minha visita. Reconhecendo pela lição que tive no Caterere que as minhas relações com Manuel Antonio não eram uma recommendação para estes vizinhos do Barue, desejei quanto possivel occultar estas relações e que me considerassem como vindo de Quelimane, Senna e só de passagem pelas terras de Manuel Antonio, mas cada circumstancia que lhes mostrava a minha maior intimidade com este capitão mór era motivo de novas desconfianças. Assim a chegada de um correio, a chegada de dois muleques que eu tinha mandado a um ponto do Barue, onde me constou haver algum mantimento, o desejo de eu expedir o meu correlo, tudo foi motivo de desconfiança e de embaraços. Sujeitava-me com paciencia a todos estes aborrecimentos, pois{11} suppunha que successivamente elles iriam diminuindo de intensidade mostrava bem ao mambo que se eu quizesse fazer guerra não estava com todas as minhas cargas a installar-me ao pé da aringa, e que a minha presença junto a elles era a melhor garantia que poderiam ter de que nenhum branco os atacaria. Pareciam convencer-se, mostravam a maior cordialidade, mas tornavam pouco depois a espantar-se pelos motivos mais futeis.

Visita de Gurupira; mau tratamento que soffreu. Disse que quando Gurupira, o filho grande do mambo Motoco, passou pelo meu acampamento do Luenha, lhe pedi que me mandasse carregadores para me levarem d'ahi para Macaha, e me comprasse mantimentos para tambem para lá mandar.

Na tarde do dia 8 de outubro, quando eu estava a conversar amigavelmente com o mambo Chiquiso, sentado sobre um panno no chão junto á minha cadeira, appareceu Gurupira com outro homem e o meu muleque que eu tinha mandado com a fazenda para a compra de mantimentos. Quasi ao mesmo tempo um preto veiu dizer baixo ao mambo que, alem d'estes tres homens, havia outros escondidos no mato. Eram simplesmente os carregadores que eu tinha pedido, que o Gurupira trazia com elle da terra do pae, e que tinha deixado proximo dos limites da terra do Rupire para me vir perguntar se eu ainda precisava d'elles. O mambo correu rapidamente para a aringa, e momentos depois elle e uns sessenta homens armados de zagaias, machados, arcos e flechas ameaçavam os dois homens que por motivo tão natural e tão facil de explicar me vinham ver, não se lembrando aquelles cobardes que n'aquelle instante só pensavam que eram sessenta contra dois, de que um d'estes dois homens era filho de um chefe que facilmente poderia arrasar todo o Rupire. Corri a defender de morte certa os dois homens, cobrindo-os com o meu corpo, mas quando deixei Gurupira para attender ao companheiro que meia duzia de homens arrastavam pelo chão, levando-o pelas pernas, e emquanto eu rolava tambem pelo chão, por me ter o desgraçado lançado os braços ao grosso da perna, foi o filho do Motoco violentamente espancado. Consegui apaziguar tudo e foram os dois homens para a aringa com a promessa formal do mambo de que lhe não fariam mal algum. Effectivamente, no dia seguinte partiu Gurupira para a sua terra tendo, antes que o deixassem saír da aringa, mandado os pandoros pedir-me fazendas para lhe dar, a fim de que a gente do Motoco lhes não viesse fazer guerra.

Partida do Rupire. Desde então não tornei mais a ver o mambo até que no dia 11 me vieram dizer que toda a gente do Rupire se tinha reunido na aringa para pedir ao mambo e aos pandoros para me não deixar ficar na sua terra.

Soube mais tarde que a maior parte da actual população do Rupire é constituida por gente do Barue, que de lá fugiu quando este reino foi tomado por Manuel Antonio, e penso que o pedido que acabo de mencionar seria motivado por ter Gurupira, em a noite que passou na aringa, fallado das estreitas relações que havia entre mim e o capitão mór de Manica. Em vista d'esta declaração e do que a gente do Rupire, a quem eu acabava de comprar terrenos, já me tinha dado noticias sufficientes para a occupação, pela força, da sua terra, onde{12} não consentiam que estivesse como amigo, resolvi, em logar de continuar para Macaha e outras terras, apenas com alguns muleques, em condições tão desfavoraveis como as da epocha e circumstancias em que eu me achava, regressar para Gouveia para propor o necessario para transformação do Rupire em terra ou prazo da corôa; e mandei dizer ao mambo que mandasse reunir carregadores para a minha partida.

Na manhã do dia 12 apresentaram-se os carregadores no acampamento e receberam todos pagamento para levarem as cargas até á povoação de Gossi, na terra de Sangano. Foi indicada esta povoação pela gente do Rupire, apesar de não se achar ella na direcção do Barue, por dizerem ser a mais proxima e aquella onde facilmente encontraria gente que quizesse ir até á aringa de Tumbura.

Estes homens, quasi todos já meus conhecidos, pelo mal que se comportaram como carregadores desde o acampamento do Inhamatoque até ao do Rupire, e depois nos varios serviços, como construcção de palhotas, de que eu os encarreguei, levantaram as cargas e pozeram-se a caminho em tão boa ordem e assim foram seguindo, que eu suppuz que teriam recebido especiaes recommendações para irem convenientemente até ao seu destino.

Tendo andado uma hora, atravessei o rio Inhamessansára, rio que eu já tinha visitado dias antes, em que os pretos lavam oiro e que nasce no mesmo centro, de onde, correndo em outra direcção, nasce o Inhamussice. O Inhamessansára é aqui limite do Rupire e de Massáoa, terra que tinha a atravessar n'uma parte que não é habitada, para chegar á terra de Sangano e povoação de Gossi, filho grande do mambo d'esta terra.