Pouco depois de atravessar o rio, eu, que nunca tinha soffrido do baço, comecei a sentir do lado esquerdo uma pontada que, augmentando rapidamente, me impediu de continuar a andar e me fez entrar em machila. Momentos depois um dos machileiros de traz largou a canna da machila para apanhar o chapéu que lhe tinha caído, e o outro que era muito fraco deixou-me cair bruscamente no chão. O choque d'esta queda aggravou muito o mal que poucos instantes antes pela primeira vez se tinha manifestado, e fiquei por mais de uma hora debaixo de uma arvore revolvendo-me no chão com dores e afflicções horriveis, e suppondo por vezes que não mais me tornaria a levantar. Os carregadores passaram para diante, na mesma extraordinaria boa ordem a que me referi, sem que eu lhes dissesse o que me tinha succedido.
Quando me foi possivel entrar na machila e pôr-me a caminho, estranhei encontrar pouco depois, descansando todos juntos os carregadores que suppunha muito adiante. Continuei no caminho avançando pouco porque os machileiros erão só os meus muleques, e nos esforços que fazia para me arrastar a pé quasi nada adiantava, quando um dos filhos do mambo chegou correndo para me avisar que os carregadores não queriam andar mais e pedir que mandasse algum muleque para tomar conta das cargas que elles queriam abandonar. Eu não estava em estado de voltar para traz e tambem suppuz preferivel não mandar{13} para junto das cargas um só moleque, mas sim dizer que as cargas tinham sido entregues ao mambo do Rupire e á sua gente, que por ellas eram responsaveis até as pôrem na povoação de Gossi; propondo-me, porém, logo que chegasse a esta povoação, mandar buscar as cargas abandonadas, por modo analogo ao que já por vezes, até no Barue, tinha tido que fazer, mesmo por falta de forças dos esfomeados carregadores.
Continuei, portanto, na minha vagarosa marcha até que, tendo anoitecido, me deitei na beira do caminho sem ter noticia da povoação de Gossi nem encontrado uma gota de agua com que matar a sêde, que mesmo aos pobres muleques devorava.
Pondo-me a caminho antes de amanhecer, na madrugada seguinte cheguei a uma pequena povoação da terra de Sangano, de um preto chamado Chirombre; soube ali em que direcção ficava a povoação de Gossi e que na vespera tinha passado deixando á esquerda o caminho que lá me teria levado. Expedi immediatamente um homem da povoação de Chirombre para ir pedir a Gossi que me mandasse homens seus buscar as cargas que a gente do Rupire me tinha deixado no caminho.
Pelas dez horas da manhã chegou á povoação de Chirombre um dos filhos do mambo do Rupire que tinha estado sempre ao meu serviço, dizendo que passára a noite ao pé das cargas, que o mambo tinha vindo da aringa e não tinha conseguido que os carregadores seguissem para diante, e que elle vinha pedir carregadores. Não havendo n'esta povoação um unico para lhe dar, voltou logo para traz com a promessa de que se poria a caminho com uns trinta homens que ainda estavam junto ás cargas. Até este momento, portanto, não tinha eu rasão para pensar que succederia differentemente do que por muitas vezes me tinha acontecido, principalmente nas minhas antigas viagens, partindo de Tete mesmo com o governador do districto, com o abandono das cargas e fuga dos carregadores.
Roubo das cargas. Na tarde, porém, d'este mesmo dia appareceu-me n'um misero estado o preto que de madrugada tinha mandado á povoação de Gossi, dizendo que tinha ali reunido alguns carregadores para ir buscar as cargas abandonadas, e que ao chegar proximo d'ellas tinha encontrado grande agrupamento de gentes do Rupire e de Massáoa; este ultimo é, como disse, o nome da terra onde as cargas estavam; que uns e outros se tinham apoderado das cargas, quebrando e rasgando os motores para distribuir entre si tudo o que elles continham; e que tanto elle como os homens de Gossi que o acompanhavam tinham sido espancados.
Por peior opinião que forme do caracter da gente do Rupire não penso que este roubo fosse premeditado. Estou convencido que quando os carregadores levantaram do acampamento tinham recommendações para seguir em boa ordem até á povoação de Gossi; e que se o mambo veiu da aringa até ao logar em que os carregadores pararam é que alguem bem intencionado o foi avisar; e creio tambem que o mambo os exhortaria a que continuassem. Mas eu por vezes tive occasião{14} de notar o pouco caso que em geral a gente do Rupire faz da auctoridade do mambo. Provavelmente estes carregadores, homens sem palavra e sem respeito pelos compromissos que tomavam em troca da fazenda que recebiam, pararam quando se sentiram cansados com as para elles, geralmente muito fracos, pesadas cargas, e só se teriam posto a caminho se eu me achasse junto a elles e se, analogamente ao que já com elles tinha succedido, os induzisse a continuar com algum novo pequeno pagamento.
Penso que estavam hesitantes no que fariam, quando gentes das povoações de Massáoa, avisadas por qualquer modo do que se passava na sua terra, correram a ver o que podiam com isso aproveitar.
Basta só poder explicar que nas discussões que entre uns e outros podessem ter tido logar um primeiro motor fosse aberto e o seu conteúdo espalhado, porque, em vista das fazendas soltas, excitados uns pelos outros, concebe-se que perdessem a idéa de toda a responsabilidade e, na febre de se apoderarem do que para elles eram tão grandes riquezas, não parassem sem terminar a sua repartição, destruindo tudo que para elles não tinha utilidade.
De nada servia voltar atrás só com os meus muleques e como me achava apenas com o que tinha sobre o corpo e sem cousa alguma para comer, n'uma miseravel povoação de quatro ou cinco palhotas, onde nada havia, procurei dirigir-me logo para a povoação do mambo da terra em que me achava.