É inutil fallar das privações que passei n'este e nos dias seguintes e, por infeliz coincidencia, quando me achava victima dos maiores soffrimentos que tinha tido em toda a vida.
Da povoação de Chirombre á de Chideu. No dia 14 parto da povoação Chirombre para a do mambo d'esta terra de Songano, chamado Chideu, ou tambem Inhamande.
Chideu é extremamente velho e quasi cego. A terra de Sangano tem pouca gente, mas o velho mambo é pessoalmente de grande auctoridade pelo poder sobrenatural de ler no futuro que lhe attribuem.
Recebeu-me muito bem, mas com um ceremonial de feiticeiro que em trabalho de outra natureza seria interessante descrever.
Possibilidade de tomar posse do Rupire antes de regressar a Gouveia. É, porém, importante notar que esta grande auctoridade na opinião do seu povo e na dos povos vizinhos, disse que o tratamento que eu tinha recebido, que o roubo que me tinha sido feito, quando ninguem, tinha a queixar-se do meu procedimento nem do da minha pouca gente quando eu tinha dado todos os presentes do costume ao mambo e aos pandoros, quando tinha comprado uma terra para construir casas e ter as minhas culturas, tudo justificava um severo castigo e que as terras do Rupire fossem tomadas pelos brancos; offerecendo-se o mambo a coadjuvar-me para esse fim com a sua gente.
É facil comprehender quanto eu desejaria, em logar de me declarar n'este relatorio uma victima de um roubo no paiz que fui visitar, de o assignar como commandante provisorio do Rupire. Por tres modos poderia ter chegado a este resultado:
1.º Pelo emprego da gente de Motoco. Achava-me, porém, principalmente pelo meu estado de saude, em condições demasiadamente miseraveis para, em relação a um povo estranho poder por mim só{15} representar a acção official portugueza, e não desejei correr o risco de que a conquista do Rupire, em logar de ser absolutamente a nosso favor, fosse quasi apenas em vantagem da relativamente poderosa gente do Motoco.
2.º Pelo emprego de gente de Tete. São conhecidos os relevantes serviços que ultimamente tem prestado ao paiz o governador d'este districto, e como a nossa occupação effectiva de vastos territorios ao sul do Zambeze entre Tete e Zumbo se tem realisado com o auxilio do capitão mór do Zumbo, Araujo Lobo e do capitão mór de Chicoa, o mosungo Ignacio. Este Ignacio tem com a sua gente ido occupando territorios para o sul de Tete até quasi á margem esquerda do Mazoe e vive de ordinario n'uma aringa que fica a menos de tres dias de caminho do Rupire. Recorrer ao governador de Tete e ao capitão mór de Chicoa era de certo resolver a questão com a maior brevidade. O proprio mambo Chideu me disse que bastava que a gente do Rupire soubesse que o mosungo Ignacio marchava para essa terra com os seus cypaes para que toda logo fugisse ou se submettesse. Em uma carta que duas ou tres semanas depois vim a receber em Gouveia do governador de Tete, informado embora com muitas alterações e exageros do que succedia, espontaneamente me pedia elle mais algumas informações a fim de immediatamente mandar avançar a necessaria gente de Tete para effectuar a posse do Rupire. Tinha porém eu partido de Gouveia com gente e conselhos do Manuel Antonio; o nome d'estes mambos vizinhos do Luenha, principalmente o do Caterere, está muito ligado no espirito de Manuel Antonio ao do Macombe, antigo rei do Barue, de quem elles eram como vassallos e suppuz que recorrendo eu ao capitão mór de Chicoa para a occupação do Rupire, não seria isso agradavel a Manuel Antonio; vindo mais tarde a reconhecer que, se assim tivesse procedido, o teria extraordinariamente offendido e talvez motivado acontecimentos desagradaveis.
O terceiro alvitre, visto que eu suppunha Manuel Antonio muito distante, occupando-se da construcção das aringas do Pungue, consistia em recorrer á aringa de Tumbura, cujo capitão é o principal chefe de guerra de Manuel Antonio, e fazer com elle, juntamente com gente do seu districto e dos districtos proximos, que todos lhe obedecem, um agrupamento de uns trezentos ou quatrocentos homens, o que me parecia ser mais do que o necessario para realisar satisfactoriamente a occupação do Rupire e de Massáoa.
Alguns caçadores matariam os bufalos e outra caça grossa, em quantidade necessaria para dois, tres ou quatro dias, e chegada a gente ao paiz, os recursos em cabras e em algum mantimento escondido, que eu sabia ali havia, serviriam por algum tempo. Um cypae de Tumbura, que me tinha trazido o correio e ainda se achava commigo, dizia-me ser facil, para cousa tão pouco importante, que o capitão Macarimgomba, chefe de Timbura, e reconhecido como capitão mór dos cypaes, reunisse a necessaria gente e fizesse a expedição, sem ordem de Manuel Antonio, e só por minha requisição. Foi este terceiro alvitre que sem ir adiante da povoação de Chideu, eu procurei realisar. Para isso mandei a Tumbura o citado cypae e muleques meus, e tambem para{16} que de Tumbura me trouxessem algumas das fazendas que eu ahi tinha em deposito, pois os meus amigos da terra de Sangano, apesar da consideração e sympathia que me dispensavam e de estarem sempre em torno de mim, pouco me davam de presente, quasi nada queriam vender de fiado, e para eu e os muleques termos a pouca e miseravel comida, que nos ia permittindo viver, tinha sido necessario que elles fossem successivamente vendendo os seus pannos até ficarem completamente nús. Parece-me que o mais precioso presente que recebi do mambo Chideu foi uma véla de cebo, que eu já tinha visto entre o seu material de feiticeiro, e que provavelmente guardava ha muitos annos; veiu o velhinho, que muito lhe custava dar alguns passos, trazer-ma á minha palhota n'uma tarde em que n'ella me achava com bastantes dores e bastante fome.