Não inscrevo aqui o itinerario detalhado. No terceiro dia de viagem por este caminho é cortado o que eu segui indo ás terras dos landins. No quinto dia ficam os pretos na margem do rio Musa, affluente do rio Chimesa, que é affluente do rio Revue.
N'este ponto da margem do Musa disseram-me, que havia ainda hoje ruinas de um antigo forte, muralhas de altura de homem e vestigios de importantes trabalhos de minas. A antiga villa e feira de Manica fica a poucas horas de caminho do rio Musa.
Entre o Revue e o rio Mussapa
Terreno muito elevado e accidentado, coberto de um a outro rio por continua e densa floresta. Passei a garganta da divisoria, que fica muito mais proxima do Mussapa que do Revue, n'uma altitude de 2:230 pés, mas no seguimento do caminho, subindo e descendo sempre, attingi varias vezes altitudes não muito inferiores a este maximo.
Em parte da floresta encontra-se uma grande quantidade das trepadeiras de que tiram a borracha e que dão um fructo que, embora bastante acido; é muito agradavel ao paladar. Cultivar n'uma grande area da floresta esta trepadeira constituiria sem duvida uma industria consideravelmente remuneradora. Cruzando o caminho, e sem necessidade de menor pesquiza vêem-se duzias de grandes filões de quartzo, havendo probabilidades de que muitos d'elles sejam auriferos. Toda esta região entre o Revue e o Mussapa fazia parte do alto Quiteve. O paiz que fica junto á margem do Revue no ponto onde atravessei este rio é o Zauve, e é n'elle, um pouco a oeste do meu itinerario, que está encravado o antigo territorio portuguez do Bandire, hoje abandonado, e que contém as valiosas minas d'este nome.
O chefe do Zauve é o regulo Murinane, que foi antigamente de grande importancia; apesar de se vestir como os outros pretos, de como elles se sentar no chão, ainda se apresenta com uma certa grandeza comparado com todos os mais chefes que eu vi. D'este regulo{18} recebi muitas informações ácerca das minas, que estão situadas nas montanhas do Bandire, tanto na vertente do Revue como na do Mussapa.
Não me parece haver ahi um placer aurifero como incontestavelmente o ha em Manica; o trabalho das minas é todo em rocha, e é por isso que penso que dos numerosos filões que encontrei entre o Revue e o Mussapa alguns pelo menos têem probabilidade de ser auriferos. Comquanto Murinane, que é um preto de cincoenta annos, de bello aspecto, me dissesse tanto como todos os outros regulos do Quiteve com quem primeiro estive, que muito desejaria ver-se livre dos vexames dos landins, e escondesse d'aquelles que me acompanhavam os presentes que lhe dei, notei grande differença entre o que vi na grande povoação d'este regulo e a miseria das gentes de áquem Revue.
Na povoação do Murinane nota-se maior independencia; já ahi todos têem as orelhas rachadas, quasi caracteristicas dos landins; todos, a começar pelo regulo, fallam bem o vatua, ou a outra lingua dos landins.
As rochas Inharumirua, que offerecem o primeiro obstaculo á navegação no Revue, desde a costa pelo Busi, ficam a menos de duas horas a jusante da povoação de Murinane; conversando pela manhã, pelas oito horas com o regulo a respeito d'esta obstrucção e da distancia ao ponto onde estavamos, mostrou elle entre os homens que estavam sentados no chão ao redor do nós, um que me disse ser o chefe de uma povoação mesmo junto a estas rochas e que n'aquella mesma manhã de lá tinha partido. Para irem da povoação de Murinane ás minas do Bandire dormem um dia no caminho, chegando no seguinte de manhã; vê-se portanto a que curta distancia estas minas estão de uma via fluvial; quando mesmo ella não seja bem navegavel em todo o tempo, para transporte de pesos muito consideraveis, e que não ha a remover constantemente, póde-se bem escolher a estação propria.
O elevado macisso de montanhas que ha entre o Revue e o Mussapa desce rapidamente do lado d'este ultimo rio, cujo valle é uma larga planicie verdejante, sem quasi arvore alguma, na qual serpenteia de um e outro lado o leito do rio.