N'este valle muito cultivado ha já algumas povoações de landins com o caracteristico bode ou rodella de cêra preta na cabeça. O contraste é bem notavel entre estas povoações landinas, onde cada um se sente seguro em sua casa e gosa tranquillamente do que é seu, onde as mulheres e creanças sabem que não podem ser levadas pelos primeiros que passem, e as infelizes povoações do Quiteve principalmente as que se acham entre o Aruangua e o Revue. As povoações landinas da margem esquerda do Mussapa são muito poucas e só formam, como testas de ponte para as densas povoações da outra margem; o territorio de Bandire é nosso, e o regulo Murinane e outros da margem direita do Revue, apesar de obedecerem hoje aos landins e de deverem marchar contra nós, se a isso forem forçados, muito prefeririam estar sujeitos directamente e só á soberania portuguesa. Não vi se, para jusante da foz do Mussapa, na pouca extensão da margem esquerda do Mufomose e do Lusito que ainda segue até ao Busi, e em toda{19} a margem esquerda d'este rio, desde a foz do Lusite até á costa, ha ou não muitas povoações de landins. Os limites do districto de Manica, se bem que theoricos, não devem ser só fixados com as terras do Gunguneana, mas, proximo da costa, tambem com o districto de Sofalla. Pelo que tenho dito parece-me haver decidida vantagem em considerar a margem esquerda do rio Mussapa e a continuação d'essa margem na altura do Mufomose, Lusite e Busi até ao mar, como limite sul do districto de Manica. O districto de Sofalla confinaria ao norte, de leste a oeste, com o de Manica, e a oeste, de norte a sul, com as terras do rei de Gasa, com limites a determinar e que restituissem a Sofalla todos os seus antigos prasos ao sul do Busi, e mais terras hoje invadidas pelos landins.

Ao sul do districto de Manica e a oeste do de Sofalla haveria um grande potentado, vassallo portuguez, que teria toda a liberdade da dictar a lei no governo das suas terras e do seu povo, afastaria a dominação estrangeira e poderia, sendo bem aconselhado, e recebendo bem os conselhos, desenvolver no seu paiz varias industrias agricolas, como a da creação de gado, a que o terreno se presta admiravelmente, e producção de lã e mohair, que dariam uma grande prosperidade ao porto de Chiloane, ou a outro porto vizinho que parece existir em melhores condições o dever vir a substitui-lo para o serviço dos paquetes.

Disse que o valle do Mussapa é uma planicie bastante larga; pareceu-me, pelo exame que fui fazendo de varios pontos do meu itinerario, que em parte seguindo este valle e ao sul do macisso de montanhas que separa o Mussapa do Revue, ha uma facha de terreno plano que sobe gradualmente para o interior, que passa não muito longe da povoação de Murinane, que passará junto á base das montanhas do Bandire e continua na direcção de Manica, cujas serras eu distinctamente via n'esta direcção.

Assim, haverá, a partir da costa, dois caminhos naturaes para a região de Manica.

O primeiro, é o que indiquei, pelo rio Pungue, e depois da margem d'este rio, seguindo obliquamente para a bacia do Revue. É o unico caminho da costa que por muito tempo nos poderá interessar.

O segundo, que parece proprio para o assentamento de uma linha ferrea, e que só agora indico como nota que possa vir a ser util para algum trabalho futuro, seria o que partisse do fundo do que dizem ser o excellente porto a que ha pouco me referia, formado por traz da ilha Boene, ou da margem esquerda do rio ou braço de mar denominado Mutizane, seguisse pelos terrenos planos do baixo Quiteve, atravessasse o Busi, talvez nas proximidades do arco Inhambimbe, ou foz do Lusite, e seguisse pelos valles e margens esquerdas dos rios Mufomose e Mussapa, passando junto ao Bandire até Manica.

Terrenos ao sul do Mussapa

Pouco me resta a dizer a respeito de terrenos, que nos interessem directamente, pois devemos considerar os territórios ao sul de Mussapa,{20} como pertencendo ao rei de Gasa; isto até que em epochas futuras todas as terras dos landins venham a passar ao dominio directo da nação.

Atravessei, como disse, o Mussapa na sua confluencia com o Mufomose; depois de uma hora de caminho em planicie, e suppondo que estava sempre no valle do Mufomose achei-me nas margens do Lusite, e passado este rio, continuei, sempre em paiz plano, até á base da serra Citatonga contra a qual me levaram, e sobre a qual tive que passar; á esquerda do meu caminho a planicie continua até á costa; á direita as montanhas elevadissimas de onde nascem o Mussapa, o Mufomose, o Lusite, o Busi, e outros affluentes d'estes rios, montanhas que separam o systema hydrographico do rio Busi do da bacia do rio Save. Este ultimo rio vem muito mais do norte, tendo as suas origens proximo da divisoria das aguas para o Zambeze, e origem do affluente do rio Aruenha, affluente do Zambeze em Masangano; corre do norte ao sul recebendo do lado do oeste as aguas de affluentes que vem das terras do Muzilicatze, do lado de leste as que nascem nas vertentes de oeste das serras de que acabo de fallar, e é junto á margem de um d'estes affluentes que está a aringa do rei Mutaça; depois, em maior latitude, volta rapidamente para leste para desaguar no oceano Indico por muitos braços formando um extenso delta a que Chiloane pertence. Os rios Busi o Save junto á costa correm portanto quasi como parallelos entre si. A villa de Sofalla fica approximadamente a meia distancia entre a foz dos dois rios.

Como se vê no esboço junto e como eu vi do alto da serra Citatonga, o rio Busi, depois de passada esta serra, corre para o norte a ir receber não muito longe, e em terreno perfeitamente plano, as aguas do Lusite; o que prova que desviando um pouco o itinerario para leste, poderia ter contornado a serra Citatonga em logar de ter passado duas vezes pela sua cumiada, o que, principalmente pela garganta por que passei na volta, é bastante custoso.