Passada a serra Citatonga, o caminho segue em terreno plano, apenas com ligeiras ondulações em alguns pontos, ficando proximo, á direita, as montanhas onde nascem o Busi e um importante affluente d'este rio, pela agua que leva, por entre rocha, o rio Muzirisi, junto á margem esquerda do qual, na pequena povoação de Cuzova, terras do grande Mugomugomo, terminou a minha viagem. Proximo da margem direita d'este rio, um pouco a montante do logar onde eu estava, e a umas cinco ou seis horas de caminho, é que está a povoação do Gunguneana.
Do valle do Muzirisi, diz o explorador inglez Mr. Erskine o seguinte: «O valle do Muzirizi (que elle chama Umswelisi) está destinado a ser um dia uma das mais productivas regiões d'este lado do continente. Assucar e café dar-se-íam ahi admiravelmente; e por causa da sua elevação supponho que será perfeitamente sadio».
Mais longe diz: «A agua transparente d'este rio é abundante e seria sufficiente para irrigar este extenso e fertil valle, e ainda para mover moinhos, para o que a sua rapida quéda o torna muito proprio».
Do Aruangua, do Revue e de todos os menores rios, affluentes d'estes, se póde em geral dizer outro tanto.{21}
A parte das terras do valle do Muzirisi que não está cultivada com milho, mapira, feijão, etc., é destinada á pastagem das numerosas cabeças de gado que o Muzila tinha, e o Gunguneana conserva e trata de augmentar, e que se acham divididas por manadas entregues aos chefes das differentes povoações. A manada na povoação de Cuzova tinha a especialidade de ser exclusivamente composta de gado muito novo, ou vitellos que iam sendo separados das mães nas manadas vizinhas.
Minha missão, seu resultado
Foi, como disse, a presença das duas embaixadas dos landins na Gorongosa, que me aconselhou a escolher esta occasião para fazer a primeira visita ao rei de Gasa. Tudo o mais nos era contrario: chuvas, cheias dos rios, caminhos fechados com palha de altura de dois homens. Não tinha tambem na Gorongosa quem soubesse portuguez e vatua, nem mesmo pessoa que me podesse acompanhar e servisse de bom interprete; de portuguez para as linguas da Gorongosa ou do Quiteve, muito similhantes, e que muitos dos landins fallam.
Um dos meus moleques era o interprete com que mais poderia contar, mas fui successivamente descobrindo a impossibilidade de lhe fazer comprehender qual era a missão do interprete, e de lhe fazer traduzir cousa que elle não pensasse entender, e sobre a qual elle depois livremente discursasse na lingua para que traduzia.
O que não fosse de accordo com a sua opinião não traduzia, e não foi possivel fazel-o referir a povos de que elle nunca tinha ouvido fallar.
Prevendo isso, logo que cheguei ao Quiteve escrevi ao capitão mór de Sofalla, um mouro chamado Amade Sene Abdalá, filho de um Gricar Abdalá, que vemos figurar como lingua do estado nos termos da reivindicação do territorio do Bandire em 1835, e de uma princeza murinane, irmã da actual rainha Gomoni e do actual regulo Murinane, preta ou princeza com que elle Gricar travou relações, e que levou para Sofalla, onde ella passou o resto da vida. Sabia eu portanto que o capitão mór de Sofalla era sobrinho dos dois mais importantes regulos do Quiteve; sabia mais, que elle, como antigo negociante, era conhecedor dos sertões, que fallava a lingua do Quiteve e a lingua vatua e que era valente; e por isso lhe escrevi, pedindo-lhe que me viesse servir de interpretre.