Da mesma povoação em que escrevi a Amade Sene, partiram rapidamente para a frente tres landins com o fim de annunciarem a Gunguneana da minha viagem. Encontrei-os de volta a uns tres dias da povoação do rei, dizendo-me da parte d'elle que seguisse e que seria bem recebido.
Na manhã de 23 de janeiro, quando suppunha que nesse dia chegaria á povoação do Gunguneana, pararam os meus conductores na povoação de Cuzova, que já tenho citado, para que fossem alguns d'elles dar parte ao rei de que eu me approximava. Só na manhã do dia 1 de fevereiro chegaram quatro grandes, que, acompanhados de muita gente, me vinham comprimentar da parte do Gunguneana, trazendo-me um{22} boi, e pedindo-me que expozesse o motivo da minha visita. Apenas consegui poder dizer-lhes que vinha para confirmar e estreitar as relações de amisade com o novo regulo portuguez, e para lhe dizer que o rei resolvêra mandar reoccupar as suas terras de Manica e avisar d'isso o Gunguneana para que se alguns landins fossem para aquelle lado recebessem do Gunguneana ordem para ter bom trato com os mosungos. Fallei apenas de Manica, e é claro que não podia pedir licença qualquer para irmos para lá, visto que as terras da região da antiga feira de Manica são portuguezas e como taes reconhecidas pelo rei de Manica e por todos os povos que habitam os paizes vizinhos. Como porém os grandes das duas embaixadas me tinham sempre acompanhado, e, depois da sua viagem e ausencia de muitos mezes não tinham ainda estado em relação com os que cercam o Gunguneana começaram em landim discursos que duraram horas, e em que notei que, de certo com as melhores intenções, porque todos os landins com que estive em contacto me deram sempre provas do sympathia, repetidas vezes fallavam em Ferrão, Gouveia, Gorongosa, Manica, Bandire e Inhaoxo, e em que provavelmente disseram que eu vinha para tomar conta de todo o Quiteve, como varias vezes o haviam dito pelo caminho, sem que palavra ou acto algum da minha parte motivasse tal asserção.
Partiram os grandes parecendo muito satisfeitos commigo e dando-o a entender que no dia seguinte ou no dia depois d'este alguem me viria buscar da parte do Gunguneana.
No dia 3 de fevereiro, quando eu já de ha muito suppunha que o capitão mór de Sofalla não podia ou não queria vir até tão longe, appareceu-me elle, motivando a sua demora pela do portador da minha carta, que fiou muitos dias em uma das povoações do caminho, dando as chuvas como pretexto da paragem.
Em outras communicações fallarei de Sofalla e do seu capitão mór, homem que me parece muito util. Elle veiu com bastante gente de Sofalla, e durante os dias que estivemos juntos, apesar da impaciencia da espera, não podia deixar de ter muito prazer, vendo fraternisar e amossossar juntos gente de Senna com a gente de Sofalla, reunião que ha muitas dezenas de annos julgo não tinha tido logar.
Esperavamos de dia para dia o aviso de Gunguneana para marcharmos; quasi todos os dias vinha de lá alguem que por varios motivos ia justificando a demora passada, annunciando que breve seguiriamos.
Indicarei alguns d'esses motivos:
a) Entrega dos Nhunhe muchopes (passaros brancos) aos seus commandantes.
Com este nome acaba Gunguneana de crear um novo corpo do exercito, recrutado em todas as suas terras e constituido com rapazes que deverão servir por um determinado numero de annos n'este corpo, e que emquanto não passarem para outro ficam prohibidos, sob pena de morte, de casar ou ter relações com mulheres. O nome é devido a que os escudos são feitos com pelles de bois brancos, e que todo o vestuario dos homens será da mesma côr; pelles ou pennas brancas. Como muitos landins vão trabalhar no Transvaal, na republica de Orange e{23} nos Campos de Diamantes, trazem d'esses paizes quantidades de pelles de carneiros de comprida lã branca, de que cortam estreitas tiras, com que adornam o grosso dos braços e as pernas, logo abaixo dos joelhos.
Quando cheguei á povoação de Cuzova tratava-se effectivamente de reunir na do Rei todos os Nhunhe muchopes, e vi passar nos primeiros dias que ali estive, muitos centos de rapazes, que de todos os lados convergiam para o ponto de reunião.