b) Reunião de outra gente de guerra, que tambem vi passar em grande quantidade, por causa de um importante acampamento, manifestado por uma extensissima linha de fogos ao longo da margem direita do rio Save, e constituido por gente do Muzilicatze, sem que ainda se soubesse se vinham para cumprimentar o novo rei, se para lhe fazer guerra.

Mais tarde, quando regressava pelo Quiteve, disseram-me que dez brancos a cavallo, vindos do lado do Muzilicatze, tinham com muita gente atravessado o Save, para visitar o Gunguneana. Não sei se estes brancos têem ou não relação com o acampamento a que me acabo de referir.

c) Reunião dos grandes, chegados de povoações muito afastadas para que Gunguneana conversasse com elles a respeito da minha visita.

No dia 11 de fevereiro chegaram finalmente á povoação de Cuzova todos os grandes que primeiro me tinham vindo ver, acompanhados de alguns outros; depois de muitos comprimentos e de conversarem sobre assumptos estranhos ao objecto da minha presença ali, o maior de entre elles, um bello e sympathico homem, por nome Magumeana, chamou do grupo de pretos, que estavam sentados atrás dos grandes, um que veiu pôr junto a mim uma pequena ponta de marfim, sobre a qual Magumeana poz duas libras sterlinas[2], dizendo que era a bôca do Gunguneana, para dizer que não podia consentir em que os brancos viessem trabalhar nas minas, nem estabelecer-se nas suas terras, porque se o fizessem, viriam depois tantos, que em breve lhe tirariam o poder; que elle Gunguneana era portuguez, que elle, mas elle só, era mulher do rei de Portugal, que assim o dizia a todos os estrangeiros, que desejava amisade com os brancos; que tem dado d'isso muitas provas, e ainda muito recentemente, quando na Chupanga lhe assassinaram traiçoeiramente, quando elles dormiam, todos os landins que lá estavam, não tendo feito guerra por esta causa; que os mosungos podem livremente vir negociar, com segurança, a todas as suas terras, mas que não quer que n'ellas explorem as minas; que os brancos nunca fizeram esse pedido a seu pae, e que notava que se tinham reservado para o fazer quando elle acabava de subir ao poder.

Fiz notar que eu já me achava em caminho quando se soube do fallecimento do Musila, e que o rei de Portugal não tinha que receber licença de pessoa alguma para mandar mosungos para as suas terras do Manica, que todos na localidade reconhecem pertencer-lhe.{24}

Era inutil qualquer discussão com estes homens isolados, visto que a resposta do Gunguneana tinha sido dada em conselho de todos os grandes, que já se achavam espalhados, e que evidentemente eu não podia ter por agora modificação ás resoluções tomadas. Tratei, só, portanto, de aproveitar a presença de um homem intelligente como é o capitão mór de Sofalla, bom conhecedor do portuguez e do landim, para dizer o que desejaria ter dito na minha primeira entrevista com os grandes, embora o mau resultado da minha viagem tornasse impossivel o tratar de muitos pontos, como o da construcção de um telegrapho com excellente directriz, passando pela povoação de Gunguneana, o transporte maritimo por Chiloane dos landis, que com viagens de mezes vão servir no Natal.

N'esse mesmo dia 11 de fevereiro comecei a viagem de volta para a Gorongosa, onde cheguei no dia 1 do corrente. Não indico n'este trabalho, destinado a fornecer infirmações a s. ex.ª o ministro da marinha, os promenores da viagem, que só podem interessar e muito aos que tiverem de percorrer o paiz.

Gunguneana disse aos grandes, quando elles vieram ver-me com a resposta, que não me pedissem fazendas, para que eu não podesse voltar dizendo que tinha comprado as minas; caso sem exemplo, com landins em frente de motores de fazendas, e que bem mostra que é receio o que elles todos têem. Dei, porém, aos grandes, tanto na primeira como na segunda visita, e mandei pelas duas occasiões ao Gunguneana alguns presentes; porque achei conveniente deixar boa impressão e separar-me dos grandes com agradaveis relações.

Os grandes nomearam tres landins para nos acompanharem, receiosos de que o estranho facto, de voltarem do lado da casa do seu chefe mosungos com motores de fazenda completos não fosse attribuido a alguma fuga ou desavença, e nos causasse embaraços no caminho.

Junto a este relatorio vae um resumo da conta de todas as despezas da viagem, incluindo as do transporte do capitão mór de Sofalla, e todos os presentes dados ao Gunguneana, seus grandes, regulos do Quiteve, e todos os chefes da povoação onde passámos, na importancia de 624$800 réis, despezas pagas pelo governo do districto de Manica.