Entre o Zambeze e o Aruangua ou Pungue
Esta região contém antigos prazos da corôa e o reino do Barue.
Durante muito tempo os prazos da corôa da margem direita do Zambeze, a jusante da serra da Lupata, todos sujeitos á jurisdicção de Senna, eram invadidos annualmente pelos landins. Estes levantavam pesados tributos, não só nos prazos, mas na propria villa de Senna, onde ao principio, se não havia coragem e meios sufficientes para resistir ao pagamento d'estes tributos, havia a riqueza necessaria para a elles satisfazer. Os landins, com que agora viajei, disseram-me que um antigo modo de os tributar consistia em abrir um furo no alto da cobertura conica de palhotas circulares, e obrigar a deitar por esta abertura fazendas até que a palhota se recusasse a receber mais. Custa a comprehender como tal exagero podia realisar-se. Por estes motivos os prazos invadidos foram successivamente abandonados e a villa de Senna chegou ao miseravel estado de que não mais se levantará.
Cabe ao sr. major Braga, actual governador do districto de Tete, o merecido elogio de, entre muitos serviços que fez como commandante militar de Senna, ter sido levado pelo seu caracter valente e decidido a auxiliar quanto podia os intentos do cidadão Manuel Antonio de Sousa, natural de Goa, negociante sertanejo, sobrinho de um antigo residente no districto, que pretendia repellir pela força as correrias dos landins aos prazos de Senna. Manuel Antonio de Sousa, chamado pelos cafres Gouveia, foi nomeado capitão mór de Manica e Quiteve, e veiu assentar a sua casa na serra da Gorongosa, em uma posição naturalmente fortificada por tal modo, que um homem resolvido a defender-se não tinha mais a temer n'esta base de operações os ataques dos landins. A serra da Gorongosa estava absolutamente deserta quando Manuel Antonio aqui chegou com os pretos que reuniu a si; nas mesmas condições quasi se achava todo o prazo d'este nome. Foram duros os primeiros tempos em que toda esta gente tinha que ir buscar, com os meios que Manuel Antonio tinha obtido e ia obtendo com o seu commercio, mantimento aos prazos limitrophes, todos muito afastados d'este ponto, ao reino do Barue e ainda á Maganja, no outro lado do Zambeze, quando houve fome em toda a margem direita do rio. Hoje muitos milhares de pessoas habitam em centenas de povoações a serra e os territorios que a rodeiam, tanto na Gorongosa como no reino do Barue. Desde que Manuel Antonio para aqui veiu como barreira, todos os prazos cobertos pelo da Gorongosa começaram a gosar de não interrompido socego e a verem desenvolver-se n'elles a cultura dos generos de exportação, com proveito dos indigenas, até ao presente os unicos agricultores, bem como dos que com elle negoceiam e em geral do paiz.
Se a villa de Senna se não resentiu da mudança de circumstancias, a não ser pelo descanso dos que n'ella continuam a vegetar, é porque se acha em situação e condições taes, que a obrigam forçosamente{8} a desapparecer. De ha muito que pela variação do leito do rio deixou Senna de ser um bom porto de abordagem para os que navegam no Zambeze, qualidade que antigamente motivára a creação e grandeza d'esta villa, apesar da bem merecida fama de insalubridade que sempre teve.
O actual talweg do rio correrá a mais do 2 kilometros da villa, e na estiagem é necessario atravessar a descoberto um ardente areal d'esta largura para chegar da margem acostavel ás primeiras casas. O areal porém não é plano, e quando não está todo descoberto na estiagem ou coberto pelas grandes cheias, periodo em que as aguas do rio voltam a correr junto ás muralhas da velha praça de S. Marçal, formam-se n'esta zona de 2 kilometros varios mucurros, cujas aguas deixam muitas vezes de correr, e que não só augmentam a insalubridade da villa pelas suas emanações, mas tornam na maior parte do anno a villa do Senna um dos pontos da margem do Zambeze de mais difficil accesso.
N'este trabalho só desejo dizer que sou de opinião que a villa de Senna, como tem sido proposto, deve sair da margem direita do rio, passando com todo o commando militar d'este nome para a outra margem; pois não devo demorar-me a mostrar as grandes vantagens que este commando militar, pertencente ao districto de Quelimane, quando tiver a sua séde em ponto escolhido, ou nas alturas em frente de Senna, onde as casas Regís e Hollandeza têem já grandes edificios, ou um pouco mais sobre o Zioé Zioé, ha de ter no desenvolvimento da nossa acção na valiosissima região limitada pela margem direita do Chire, pelo Zioé Zioé e pela margem esquerda do Zambeze até á Lupata no ponto onde vier a terminar o districto de Tete.
Comquanto o prazo Gorongosa siga ao longo do Aruangua até avistar o mar, não chega elle até á costa, porque a confluencia do Urema na bacia que supponho ser um bom porto de mar, traz com a margem esquerda d'este rio uma porção do grande prazo Cheringoma a interpôr-se entre a Gorongosa e o Oceano. É nesta altura que os landins que se desacostumaram de pisar como conquistadores o prazo Gorongosa, passam hoje para os terrenos ao norte do Pungue atravessando o deserto prazo Cheringoma (onde julgo que tambem deixam algum destacamento) para, graças ao terror que inspira o seu nome e o apparecimento de um só de entre elles entre os pontos da foz do Zambeze, irem sugar alguns d'estes pretos e mesmo mosungos que estejam nos prazos marginaes a jusante do Gorongosa, isto é, os prazos Caia, Inhamunho, Chupanga, Luabo e Melambe.
Quando em 1881 vim pela segunda vez á Zambezia e fiz o conhecimento do Manuel Antonio de Sousa, disse-me elle que se o governo do districto de Quelimane lhe desse de arrendamento os prazos de Chupanga e Cheringoma, pelo preço rasoavel que então quizesse marcar, mas com a condição de que os não poria em praça durante nove annos, tempo por que andavam arrendados os prazos do districto de Tete, a fim de evitar que passados tres ou quatro annos de despezas, trabalhos e perigos, outros viessem concorrer em igualdade de condições para o goso dos resultados obtidos, elle, assim como tinha fechado aos landins a villa de Senna e os prazos envolvidos pelo da Gorongosa, se{9} compromettia a pôr no prazo Cheringoma uma barreira que evitasse para sempre a passagem dos landins para os prazos Caia, Inhamunho, Luabo e Melambe: disse-me mais que já tinha proposto ao arrendatario do Cheringoma que se oppozesse aos landins, mas que este apenas se contentava em aproveitar o prazo para mandar caçar alguns elephantes ou apanhar borracha que n'elle abunda, pagando successivamente ao Musila os tributos de fazenda que a este fossem contentando. Não apreciei então devidamente o grande poder que a rara intelligencia ou perspicácia especial, a actividade, a coragem, o amor do trabalho, a generosidade e a acção absoluta que estas qualidades exerciam sobre milhares de indigenas davam a Manuel Antonio, nem o grande valor que para o paiz tinha a sua proposta, e não a communiquei a pessoa alguma.
No meu diario, 20 de dezembro de 1884, encontro umas palavras que escrevi ao chegar á margem do rio Pungue, quando me via em frente de um poderoso obstaculo que exercitos munidos com bons trens de pontes não deixariam de respeitar. Espero fazer bem transcrevendo-os: «O terreno na ultima parte percorrida é park-like como todo o que precede, mas ainda tem melhores pastagens e melhores terras para agricultura,—terras soltas que serviriam para mendobim—grés e muitos filões de quartzo, nas margens granito. Póde-se considerar verdadeiramente sujeita á soberania portugueza, ou a Manuel Antonio, com relação ao Barue, toda a vasta area comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua. Vejo que todos os que me rodeiam assim o reconhecem; assim como consideram como terras de landins as dos regulos da margem direita do rio. É necessario e urgente occupar aqui um ponto na margem esquerda do Aruangua. Estou certo, agora, que as nossas relações com os landins vão ser muito boas, e espero alcançar alguma cousa para o sul do Aruangua; só um acto de hostilidade declarada é que os poderia trazer em massa ao que elles consideram nossas terras, apesar de costumados a fazer com meia duzia de homens o que n'ellas fazem; mas a este acto nas circumstancias em que estamos podiamos bem resistir. Assim, por um modo ou por outro, Cheringoma, Luabo[1], Melambe, Chupanga, Inhamunho e Caia ficarão de futuro abertos com segurança aos nossos pretos e em breve se acharão habitados.»