Esta riquissima região proximo da costa, que por si só, quando aproveitada, póde render bem mais do que toda a actual provincia de Moçambique, acha-se deserta e de todo desaproveitada, só pelo terror que causa o nome dos landins e a chegada annual de uns vinte ou trinta pretos adornados com pelles e pennas, e armados com um escudo e duas pequenas zagaias. Em dias, que é de esperar não estarão longe, custará a acreditar que um tão aviltante estado de cousas se possa ter continuado por tantos annos n'uma tal localidade.

Alem dos prazos da corôa de que tenho fallado, ha mais, entre o rio{10} Zambeze e o Quelimane para leste do Aruenha, uns muito pequenos prazos juntos ao prazo Gorongosa ou mesmo n'elle encravados, arrendados por Manuel Antonio; alguns pequenos prazos nas proximidades de Senna arrendados por diversos, o muito povoado prazo Chemba, arrendado por Manuel Antonio e d'onde elle tirou mais de dois mil cypaes que levou á guerra do Matacanha (pois para esta guerra não teve que tocar na gente da Gorongosa); o prazo Amoesa, o prazo Chiramba marginal, como o Chemba o é, do Zambeze, tambem arrendado por Manuel Antonio, mas parte invadido por gentes do Bonga, o grande prazo Tambára, de ha muito sertão abandonado, e os prazos todos occupados pela gente do Bonga, incluindo o prazo Masangano.

Em toda a valiosa região de que estou fallando, comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua encoutrâmos apenas dois obstaculos ao seguro desenvolvimento dos seus grandes recursos naturaes. O primeiro, pouco importante, é o Bonga; o segundo são os landins. Ha dois unicos homens, dedicados ao paiz, que têem poder sobre os indigenas que habitam a maior parte das terras da antiga capitania dos Rios de Senna. São os dois homens que com toda a probabilidade salvaram ha poucos mezes a soberania portugueza na Zambezia. São Manuel Antonio de Sousa e Anselmo Ferrão. Este, comquanto capitão mór de Senna, habita hoje a margem esquerda do Zambeze e tem d'este lado um vasto campo onde empregar utilmente a sua acção. Fica Manuel Antonio de Sousa e é só contando com o auxilio d'este capitão mór que praticamente se poderão remover, dentro da area de que trato, estes dois obstaculos. O centro de acção, a base de operação de Manuel Antonio de Sousa, é a serra da Gorongosa, e é na serra da Gorongosa que se acha provisoriamente a séde do governo de Manica; por este motivo e pelo mais que fica dito parece natural e conveniente que os territorios desde o ponto de resistencia á passagem dos landins no prazo Cheringoma, até á aringa do Bonga na foz do Aruenha façam parte do districto de Manica.

Assim, parece que o limite norte a recommendar para o districto seria toda a margem esquerda do Zambeze desde a costa até á foz do rio Aruenha.

O conhecimento porém, que hoje temos da importancia do porto do Inhamissengo, os resultados que se prevêem da fundação da villa Mesquita, proposta pelo sr. capitão-tenente Augusto de Castilho, fazem esperar um tal desenvolvimento á importação e exportação directas de todo o commercio da Zambezia, a realisar de futuro por esta via e porto, que dar toda a margem direita do Zambeze, dar a villa Mesquita e o porto do Inhamissengo ao districto de Manica causaria um grande abalo no systema financeiro de Quelimane. Evita-se de todo este inconveniente, conservando no districto de Quelimane os dois prazos Luabo e Melambe, que têem parte dos seus terrenos no delta do rio, passando agora para Manica por inteiro os restantes prazos, ficando para mais tarde a rectificação da fronteira dos dois districtos desde a margem do Zambeze até á costa, se se encontrar uma linha de separação mais natural do que o poderão ser as para nós desconhecidas confrontações dos prazos Luabo e Melambe com os prazos Chupanga e Cheringoma.{11}

D'aqui resulta que o commando militar já creado na Chupanga ficaria pertencendo ao governo de Manica, o que teria a vantagem de fazer abrir caminho da séde de commando, ou forte que se fez ou está fazendo no antigo Luane do Prazo (a mais solida casa da Zambezia) para villa Gouveia, devassando e rasgando um paiz compacto, cheio de recursos, hoje deserto, e que não tardaria a ir sendo habitado ao longo da linha de communicação.

O commandante militar de Chupanga, dependendo do governo de Manica, havia de vir á séde do seu governo e atravessar a area do seu commando; dependendo de Quelimane, fará geralmente, como geralmente fazem os commandantes militares de Senna, que chegam ao seu commando vindo de Quelimane, navegando pelo Zambeze acima, desembarcando proximo de casa, e não saíndo mais da villa de Senna senão para voltar a Quelimane.

A adopção dos limites, que proponho, imporia a realisação previa ou simultanea da, tantas vezes proposta, mudança do commando militar de Senna, e da villa d'este nome para a margem fronteira; pois seria absolutamente impossivel, a querer trabalhar-se para resultados praticos, o introduzir desde já no nascente districto de Manica, a aperfeiçoada legislação, mais perfeita que a de qualquer colonia de qualquer outro paiz, que vigora nos restantes districtos da provincia, e portanto na actual villa de Senna.

Provisoriamente a praça, e só a praça de S. Marçal, deveria ficar sob as ordens do commandante militar de Senna, que n'ella poria um fiel e os homens necessarios para a arrecadação do material que n'ella se quizesse guardar.

Não é possivel, porém, conservar como occupadas enormes areas com um numero de auctoridades como o que até ao presente temos tido na provincia de Moçambique; e por isso o commando militar de Senna, passando para a margem esquerda do rio para ficar no districto de Quelimane, não deve deixar de ser substituido por um outro, com a séde não longe da actual villa de Senna, mas em logar mais recommendavel pela sua salubridade e facil acostamento. Parece-me que facilmente satisfará a estas condições algum ponto escolhido no muito povoado prazo Chemba, pouco a montante da foz do rio Musingase.