*No theatro anatomico*

Sobre a meza de marmore luxuosa
Descança scintillante formosura
D'uma creança esbelta, uma pintura,
Que parece dormir silenciosa.

As alvas rômas, que a virtude espósa
São como alegre ninho de candura;
Tão fresca, tão sentida e melindrosa,
Causa pena entregal-a á sepultura.

Os estudantes em prodiga algarvia
Retalhando o cadaver delicado
Jogam chufas de sordida alegria.

Mais tarde o esqueleto dissecado
Assiste ás prelecções d'anatomia
Á escuta com ar petrificado.

*Epitaphio*

Meu coração aqui jaz, erma ruina
Onde habita a ironia, o vil phantasma
Golphão anachoreta entre o miasma
Perseguido p'la brisa crystallina.

O lyrio, o trevo ri junto á bonina,
Só de raiva a minha alma abdica, pasma
Porque a tristeza famulenta traz-m'a
Nas duras garras d'ave de rapina.

Meu coração aqui, sob esta alfombra
Dos pallidos desdens, justos ciumes
Adora morto e frio a tua sombra.

Até que emfim—oh ceus!—os meus queixumes
Te despertam o choro, que me assombra
Envolvendo o cadaver em perfumes!