Como em outro tempo a clausura monastica era um seguro asylo, onde a mocidade podia servir a Deos, a si, e aos outros, e facilmente subir ás mais altas dignidades, fosse qual fosse o berço em que o homem nascesse; ou, quando menos, um meio de fugir aos perigos, e incommodos da vida, julgou seu pai, que tal vida convinha a seu filho, cujos talentos cada dia se manifestavam por um modo extraordinario, e por isso, havendo frequentado em Beja os estudos necessarios, para entrar em religião, tomou o habito de Santo Agostinho, dos Eremitas calçados no convento de Nossa Senhora da Graça, na cidade de Lisboa, na qual religião professou; e foi sacerdote com o nome de Fr. José de Santo Agostinho. Alli fez admirar os seus talentos, e algumas vezes tirou os padres de certos embaraços, como foi na occasião da morte do conde de Villa Verde, que sendo descendente do grande Affonso de Albuquerque, determinou ser enterrado na mesma sepultura do seu immortal ascendente, que na Igreja do mesmo convento jazia, mas que pela nova forma que se dera ao dito Templo arruinado pelo terremoto do 1 de Novembro de 1755, se havia perdido; declarando José Agostinho, onde elle se achava.

Prégava na sua religião com muito applauso dos religiosos, e admiração de todos, mas, se se fazia admirar pelos seus talentos naturaes mais, do que pelo seu estudo assiduo, tambem se fazia aborrecer pelo seu desmedido orgulho, e pelas suas leviandades e travessuras, praticadas, tanto no convento da Graça em Lisboa, como no collegio de Coimbra, travessuras, a que o seu caracter dava facil accesso; e como em toda a parte se encontra quem alimente o mal, Fr. José achou na sua ordem um companheiro, que se não tinha o seu talento, tinha com tudo mais ideia para formar os tumultos com que constantemente affligiam a communidade; tão indigno confrade, foi Fr. Francisco, natural da Vacariça; porem, como taes excessos não se poderiam tolerar n'huma casa particular quanto mais n'huma corporação, o prelado, que tinha stricta obrigação de os reprimir foi por isso obrigado por vezes a applicar a estes perturbadores da communidade as penas consignadas no Estatuto da ordem; mas taes castigos applicados a um caracter orgulhoso pelo talento como o de Fr. José, levaram este mancebo ao extremo de não poder supportar o suave jugo d'aquelle sagrado Instituto; infeliz, porque nem mesmo aquellas cadeias, ainda que de ouro, tecidas pela caridade christã, poderam prender o seu genio inquieto, que o levaram ao excesso de deixar a sua Santa Communidade apostatando.

A apostasia não podia livrar Fr. José d'uma justa perseguição dos seus confrades, a quem faltava um irmão que era preciso conduzir ao seio da familia pelos laços da religião, e que poderia ainda corrigir-se, e assim aproveitarem-se os talentos superiores d'um mancebo, que poderia ser um dia o ornamento da ordem, e o da patria; mas talvez melhores conselhos, ou pelo menos mais prudentes, prevaleceram nos conselhos da communidade, e deixando de perseguir Fr. José de Santo Agostinho lhe passaram sentença de expulsão perpetua da Sagrada Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho. Em quanto a Fr. Francisco não sabemos se foi tambem expulso, é porem certo que appareceo secularisado e que até o fim da sua vida (ainda temos bem presente a occasião do seu enterro na Igreja de São Vicente da Vacariça), foi um homem d'uma vida muito desregrada.

Lançado no seculo Fr. José de Santo Agostinho, elle se appelidou Padre José Agostinho de Macedo. Macedo já não soffria a justa perseguição que se fazia ao apostata, mas soffria a perseguição da indigencia, com que lutava, indigencia que emanava do desprezo publico. Tão severa lição, dada pela Providencia a um individuo que conhecia o seu talento, mas que acabava de ser assim levado á humilhação, fel-o pensar, e mudar de vida; para assim poder entrar na sociabilidade dos homens. Macedo, effectivamente mudou de systema, e começou a ser mais considerado. Durante a sua grande miseria tiveram d'elle muito dó as religiosas Trinas do Rato, que quasi exclusivamente foram, quem lhe mataram a fome, e eis-aqui explicada a causa porque Macedo tinha tanta affeição por aquella casa; era em dever de gratidão, e a que só uma alma totalmente pervertida poderia faltar.

Mais comedido, Macedo começou a ser admittido á communhão dos homens de letras, e como era dotado de muita finura, e via que para não voltar á indigencia, não tinha remedio se não aproveitar o seu engenho, devorou quantos Santoraes, e Sermonarios encontrou, leo os Escriptores Ecclesiasticos, os concilios, Historia Ecclesiastica, Santos Padres, Escriptura etc., e em fim tudo o que pode constituir um bom prégador.

Mas sobre tudo o meio mais efficaz que empregou para adquirir os conhecimentos solidos com que enriqueceu sua alma, foi o da amisade, e relações com os muitos e distinctos oradores, com os poetas, sabios, e litteratos do seu tempo, que eram muitos em numero, e muito grandes em merecimentos porque bem sabia que vale mais uma conferencia com taes homens; do que muitos annos de estudo; e como tinha grande memoria nada lhe escapava do que elles diziam, e consultava os auctores que elles citavam, correndo todas as bibliothecas de Lisboa; ouvia os grandes oradores com muita attenção, e com mais desejo de os exceder do que de os imitar, louvavel emulação, quando não degenera em soberba.

D'esta sorte ajudado o seu engenho pela arte, e despido de todo o acanhamento em publico começou a subir ao pulpito com tanta promptidão, e fallar com tanto applauso do auditorio, que em breve se tornou celebre pelos seus discursos Sagrados, que causavão mais admiração por serem improvisados, do que muitos pelo desempenho. Houve dia na Quaresma, em que prégava seis, sete, e oito, differentes inteiramente, ás vezes sobre o mesmo assumpto. Quando o elogiavam em alguma Igreja, costumava dizer ás vezes—são fornadas—; como taes se podem chamar os sermões que lhe sahiram em 1820, e depois em 1823 e seguintes.

Hum orador de tão subido merito não podia ficar no esquecimento dos homens protectores dos genios transcendentes, e Monsenhor Rebello lhe alcançou do Principe Regente a nomeação de pregador regio, por carta de 8 de Novembro de 1802, tendo no espaço de vinte e nove annos, muitas vezes tido a honra de prégar diante de Suas Magestades, e Altezas. Foi tambem nomeado censor regio do Patriarchado, logar tambem de grande consideração e respeito. A ultima graça regia que teve foi a de substituto do Chronista mor do Reino por decreto de 21 de Junho de 1830, como se vê do seguinte documento.

Eu El-Rei. Faço saber aos que este Alvará de assentamento virem que por parte do Padre José Agostinho de Macedo Me foi apresentado um Alvará passado pela Meza do Dezembargo do Paço em 14 de Junho do corrente anno, pelo qual Fui servido Nomeal-o Substituto Chronista do Reino com o ordenado de 300$000, o qual Alvará lhe foi dado pela dita Meza em vista do Decreto de 21 de Junho do anno proximo passado. E pedindo-Me o sobredito agraciado lhe mandasse passar o presente a fim de poder haver aquelle vencimento pela estação competente: Em consideração, pois, e Attendendo ao que Me foi presente em informação do Escrivão da minha Fazenda, sobre o que respondeo o Conselheiro Procurador da mesma; Hei por bem que o sobre-mencionado Padre José Agostinho de Macedo tenha e haja, com o logar de Substituto Chronista do Reino, de seu assentamento em cada um anno 300$000, assentados e pagos pela Folha dos ordenados da Alfandega Grande d'esta cidade, com o vencimento do dia da mercê em diante. Pelo que mando aos Ministros Conselheiros do Conselho da Fazenda lhe façam assentar nos competentes Livros a referida addição, para annualmente hir na respectiva Folha, e ser-lhe pago como dito fica. Por quanto pagou de Novos Direitos 30 reis que foram carregados ao Thesoureiro d'elles a fl. 61 do livro 4.º da sua Receita, como constou d'um Conhecimento em forma registado a fl. 136 V.º do Livro 104 do Registo geral dos mesmos direitos, que se rompeo ao assignar d'este que valerá posto que seu effeito haja de durar mais d'um anno, sem embargo da ordenação em contrario e se cumprirá, indo por Mim assignada, tendo passado pela Minha Chancellaria, e sendo registada nos livros d'ella, Mercês e Fazenda. Lisboa 18 de Agosto de 1831.—REI—Doutor Diogo Vieira de Tovar e Albuquerque—João Manoel Guerreiro d'Amorim. Manoel Xavier da Gama Lobo o fiz escrever.—Domingos Antonio Barboza Torres a fez. De feitio e registo 800 reis. Passou-se por Despacho do Tribunal do Conselho da Fazenda de 11 de Agosto de 1831. Antonio Gonçalves Ribeiro. Gratis. Pagou 30 reis e aos officiaes nada por quitarem. Lisboa 10 de Setembro de 1831. Como Vedor José Bravo Pereira.

Se o Padre Macedo bastante figurou no mundo, melhor figura poderia ter feito se nunca tivera sahido da sua ordem, onde tinha todos os elementos para a elevação, que no seculo, apesar de todos os seus exforços sempre se lhe mostrou avessa. Os monarchas tiveram-no em toda a consideração, e premiaram o seu talento até onde a moral permittia se fosse, mas nunca o propozeram para o episcopado, que eram todos os desejos de José Agostinho.