Como o caracter moral do escriptor é pelo mesmo escriptor desenhado, e gravado em suas obras, por ellas conhecerá o leitor o Padre José Agostinho de Macedo: todavia faremos menção da Meditação da qual me disse o nosso eruditissimo desembargador João da Cunha Neves e Carvalho Portugal, que, quando estivera em França, ouvira dizer ao cura de S. Thomaz d'Aquino (que aprendeo o portuguez para ler as obras do bispo D. Jeronimo Osorio), que o Poema Philosophico a Meditação era obra acabada, e que isto mesmo ouvira a muitos outros Litteratos francezes. Esta obra não foi uma produção de momento, como aquellas tão frequentemente sahidas dos bicos da penna de José Agostinho, e assim o parece por que o masso original do dito poema, que existe na Torre do Tombo, tem no fim a seguinte nota pela mesma letra do dito masso, e que é a do auctor. "Foi começado este poema em 2 de Dezembro de 1793, e concluido n'este estado de possivel perfeição em que aparece a 5 de Janeiro de 1810"—Dedicado á Universidade de Coimbra com a data de 13 de Janeiro de 1810. O elogio necrologico de Ricardo Raimundo Nogueira, é um modelo de estilo, e sizudeza. Ricardo Raimundo havia sido o censor das obras de José Agostinho.

Assim deixamos esboçada a vida do padre Macedo, e cuja morte lhe sobreveio em Pedroiços, depois de longa enfermidade de bexiga, ás 11 horas da manha do dia 2 de Outubro de 1831, tendo sido assistido do padre Manoel Barreiros, prior de S. Domingos de Bemfica. Jaz na capella de S. Nicoláo de Tolentino, da Igreja do convento de Nossa Senhora dos Remedios das religiosas Trinitarias, no sitio do Rato, em Lisboa.

O Senhor D. Miguel, que então occupava o Throno Portuguez, lhe mandou fazer o enterro, para o que ordenou, que fosse em coche da Casa Real. Ao mesmo Augusto Senhor se entregou a chave do caixão do padre Macedo, e por Sua ordem se tirou a cêra o seu retrato, para se lhe levantar um busto.

O retrato de José Agostinho de perfil inteiro, é tão exacto, segundo o testemunho das pessoas que o conheceram, que ninguem deixará de o reconhecer á primeira vista; o de meio perfil não lhe é inferior; são obras de mão de mestre.

O Catalogo das obras de José Agostinho nunca é possivel publicar-se completo, porque muitas obras escreveu, que não viram, nem podiam imprimir-se por sua materia e forma: muitas parecia incrivel tivessem licença para se imprimirem. De uma sabemos nós, a que se negou licença, intitulada—Os traques da Besta. Todavia, nós terminaremos esta biographia com o Catalogo publicado pelo Dr. Rego Abranches, a que faremos um supplemento porque d'algumas sabemos nós que não se acham no dito Catalogo.

Temos pois feito uma biographia d'um homem que morreo quando nós já contavamos quinze annos, mas que apenas conhecemos por tradicção, e pelas suas obras. Bem sabemos que diversamente tem sido avaliado o merecimento litterario d'este portuguez illustre pelo talento, e mesmo pelo nascimento, porque Macedo era parente pela parte materna do nosso distincto escriptor Jacinto Freire.

Muito de proposito fugimos de fallar das eternas questões litterarias (e não litterarias) travadas em vida do padre Macedo entre elle e os litteratos do seu tempo, porque não queremos ser taxados de ousados apresentando-nos a fazer juizo entre José Agostinho, Pato Moniz, Bocage, Silva, Loureiro, Couto etc. etc.; todavia não podemos deixar de censurar ao referido Antonio Maria do Couto professor de grego, que não tendo melhor vida, nem tendo os seus talentos, se apresentasse dez annos depois da morte de Macedo, a abocanhar o seo merecimento litterario e moral, na biographia, que serve de introducção a segunda edicção do Motim Litterario. Censurar José Agostinho em costumes, não podia ser por um homem que não lhe foi inferior nas leviandades da mocidade, e que talvez o excedeo na velhice. Em nosso humilde modo de pensar andou ainda n'este negocio o odio politico, porque Couto e Macedo tambem n'esta parte divergião.

Tal fraqueza de espirito não só se devisou em Couto e outros, mas ainda em alguns individuos que professaram o mesmo principio dynastico que Macedo tambem professara, mas que estiveram muito distantes em quanto a principios governamentaes. Entre estes citaremos Fr. Matheus da Assumpção Brandão, que ainda perseguio Macedo depois de morto.

Mas se por um lado homens de pequeno espirito, tem querido deprimir o homem que pertence á historia, mas não para ser insultado, tambem tem apparecido quem faça justiça ao homem morto; entre estes citaremos o Dr. Antonio Manoel do Rego Abranches, homem, que em politica foi opposto a Macedo, mas que na pequena biographia que serve de introducção ao Catalogo das obras do padre diz:

"Hum sentimento de patriotismo em fazer conhecer as muitas obras impressas de José Agostinho de Macedo nos incitou a imprimir o presente Catalogo por não haver impressa alguma noticia exacta das suas producções litterarias, nem ao menos Catalogo das que correm impressas, de que o titulo mesmo de muitas d'ellas he ignorado existindo apenas essa diminuta resenha publicada na nova edicção do Motim Litterario pelo auctor da Biographia historica e Litteraria, que não quiz dar-se a trabalho pensando talvez não tornar elle o Traductor da Batrachomyomachia alguma cousa mais em Philologia nem mais lhe auctorisou o vislumbre de renome, e d'aura popular.[1] Com o nome de Fr. José de Santo Agostinho foi sacerdote professo da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho calçados, da qual secularisando-se voltou ao seculo. Foi Prégador Regio, Censor do Ordinario, Academico da Arcadia de Roma com o nome entre os seus Alumnos de Elmiro Tagideo, homem de talento, grande memoria, e vasta erudição, em fim um sabio, de que seus escriptos são o elogio."