Este segundo periodo da nova sciencia, que é denominado dos antiquarios, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira metade do XVIII.
Portugal não foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este passo, como em muitos outros, se antecipou ás mais nações, pois que no principio da segunda metade do século XV, D. Affonso, marquez de Valença, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragança, indo acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de historia natural, com os quaes, na sua volta á patria, organisou um museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se crearam na Europa.
Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades só teve principio entre nós passado um seculo; e foi de fóra que então nos veio o incentivo.
Graças ás intimas relações do nosso paiz com as principaes potencias maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava n'aquellas nações, não se demorava muito em se fazer sentir entre nós. Porém no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem de um nosso compatriota, que alcançou nas letras nome illustre. André de Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu a França e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor dos estudos archeologicos. Regressando á patria entregou-se com ardor e perseverança a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas com inscripções romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras, em que dava conta d'essas locubrações predilectas. Duas viram a luz da imprensa, com o titulo de: Historia das antiguidades d'Evora, publicada em 1553; e Libri quatuor de antiquitatibus Lusitàniæ, impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: Monumenta, romanorum in Lusitanis urbibus.
Assim começaram estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia á época do dominio romano.
As nações que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos, desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se ensinava ou discursava sobre antiguidades.
Então os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emoções e buscando alargar a área dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo, desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os resultados das suas investigações.
Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, João Augusto Ernesti, João Jorge Grœvinus, Gronovius, allemães. Todavia nos seus vastos repositorios de memorias e dissertações, posto que tratem mais particularmente das antiguidades gregas e romanas, já se occupam de todas as partes da archeologia.
III
Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente com a tarefa de escrever a historia de Portugal, o encargo de velar pela conservação dos monumentos nacionaes, obstando a que se destruissem, ou fossem levados para fóra do reino, os objectos d'antiguidade, já descobertos, ou que viessem a descobrir-se. Fundaram-se em Lisboa alguns museus de antiguidades, sendo um no proprio edificio da academia (o palacio dos duques de Bragança, na rua do Thesouro Velho), e os outros particulares. Entre as muitas obras volumosas, escriptas pelos academicos, e impressas por ordem da academia, contam-se algumas consagradas exclusivamente a antiguidades nacionaes.