Em geral os espiritos, que se dedicavam a este genero de litteratura, continuavam a concentrar todas as suas attenções nos monumentos romanos, de que havia então bastante copia no reino, e que estavam por conseguinte muito ligados com a nossa historia. Entretanto houve academicos que, saindo fóra d'esse apertado circulo, encetaram estudos inteiramente novos no paiz. Martinho de Mendonça e Pina, em 1733, leu em uma sessão d'aquella academia uma memoria sobre os rudes altares a que chamam antas em Portugal. Este estudo publicado nas Memorias da Academia, foi o primeiro trabalho litterario, que se fez entre nós relativamente a monumentos prehistoricos.
IV
Na segunda metade d'esse mesmo seculo teve começo o terceiro periodo da archeologia, no qual obteve os fóros de verdadeira sciencia. Abriu esse periodo um dos mais talentosos e perseverantes filhos da Allemanha. João Joaquim Winckelmann, nascido em 1717, e fallecido em 1768, que se elevou pelo seu saber, de uma posição social muito humilde, a vice-reitor da universidade de Halle, e a bibliothecario do Vaticano, foi o fundador da esthetica moderna, e o creador do estudo philosophico e consciencioso da arte antiga. Entre muitas obras, que lhe grangearam subida honra, sobresae a Historia da Arte, que immortalisou o seu nome. N'esta obra magistral, que dividiu em 6 livros, estabeleceu e sellou de um modo incontroverso a alliança das artes com a archeologia, marcando a esta, como norma e alvo a que deve mirar, seguir escrupulomente sob todos os aspectos, pela apreciação do trabalho humano nas artes e na industria, o desenvolvimento da civilisação nos seculos passados; e estabelecendo ao mesmo tempo o methodo racional e claro para alcançar esse fim.
Teve grande importancia esta obra, não só por dilatar os horisontes da nova sciencia, e abrir amplas vias aos seus cultores; mas tambem por diffundir o gosto dos estudos archeologicos, graças á elegancia do seu estylo, á lucidez dos seus argumentos, e sobretudo ao enthusiasmo com que falla dos grandes primores da arte antiga, e dos evplendores da civilisação grega e romana. D'essa benefica influencia originaram-se alguns dos mais ricos museus de antiguidades, que hoje existem, e muitas collecções partiticulares valiosas, que promoveram e facilitaram o estudo.
Seguindo ousadamente os passos do erudito auctor da Historia da Arte, assignalaram-se após elle outros archeologos por distinctos serviços prestados á sciencia. O conde de Caylus classifica por ordem chronologica os monumentos das differentes edades, e penetra o segredo que produziu a maior parte das artes. O archeologo italiano Morcelli cria um systema regular para a classificação das inscripções, conforme o assumpto de que tratam, e para o estudo d'ellas, segundo o seu estylo. O celebre numismata padre Eckhel, jesuita allemão, coordena methodicamente a sciencia das medalhas; á qual o douto dinamarquez Rask accrescentou a ordem alphabetica. O sabio philologo e antiquario padre Passeri, italiano, que organisou o rico museu do grã-duque de Toscana, explica a um numeroso auditorio sob o portico de Lanzi, em Florença, com mais proficiencia do que o fizera Demspter, no seculo antecedente, os idiomas e os monumentos da Italia, anteriores á fundação de Roma.
O descobrimento das ruinas de Herculanum deixára ajuizar de alguns usos e costumes dos romanos ainda mal conhecidos. Porém quando em 1755 se começou a levantar a espessa mortalha, que envolveu Pompeia em seu leito de morte durante 17 seculos, fazendo surgir do sepulchro uma cidade romana com as suas praças, ruas e casas guarnecidas e adereçadas interiormente, como na hora fatal em que as cinzas do Vesuvio a sepultaram no anno 79 da era christã, revelou-se aos olhos absortos dos antiquarios a vida publica e privada do povo romano com todos os seus usos e costumes, pois que só então foi bem conhecida uma infinidade de coisas e circumstancias, que eram inteiramente ignoradas.
Accentuando-se cada vez mais os progressos da archeologia, o abbade Barthelemy, francez, reedifica a Grecia de Pericles, e Jorge Zoega, antiquario dinamarquez, começa a erguer o veu que occultava á sciencia o antigo Egypto. Napoleão Bonaparte emprehende a conquista d'este paiz, e as aguias francezas triumphantes abrem ignotos caminhos á archeologia, e patenteiam-lhe um immenso thesouro de preciosas reliquias da mais remota antiguidade. Vivant-Denon reproduz com o seu lapis habil e delicado, os soberbos monumentos do imperio dos Pharaós, e copía com escrupulosa exactidão, dos muros ennegrecidos pelo embate de tantos seculos, esses mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil fórmas emblematicas, senão os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio.
D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal Magasin Encyclopedique, por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publíca varias obras importantes sobre esta sciencia, e um Diccionario de Bellas Artes. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu excellente Curso d'Archeologia, e entre outras publicações não menos interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns sabios inglezes, italianos e allemães, Mr. A. du Caumont facilita e popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso Abecedario ou rudimentos da archeologia.
Os livros d'estes homens, de espirito elevado, dão um grande incitamento ás investigações archeologicas; e as descobertas dos testemunhos authenticos da existencia do homem na remotissima época quaternaria, trouxeram ao campo das discussões scientificas a origem da especie humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavacões casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E não tardou a reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da exposição das suas investigações, e das discussões de uma assembléa tão competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto passado.
Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a apresentar a idéa de um congresso internacional de archeologia prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abraçado com enthusiasmo; porém antes que podésse ser realisado na terra, onde tivera origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias.