No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam largamente do assumpto; ajustam e lançam as bases para a convocação do segundo congresso, que dá principio ás suas sessões em Paris, no anno de 1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposição universal, com uma secção intitulada Historia do trabalho humano, onde figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes do globo, e de todas as épocas até ás primitivas da humanidade.

Desde então entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade scientifica, protegida pelos governos das nações mais cultas, reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos.

V

Portugal não tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisação, n'aquelle movimento scientifico. Todavia, não se póde dizer que lhe tenha ficado estranho.

Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa, provam que esta corporação se occupou, desde a sua instituição, de assumptos archeologicos, relativos á historia do paiz. Além disso n'estes últimos annos tem havido entre nós não poucos escriptores que se tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos.

Temos sido muito descuidados na formação de museus archeologicos, e é uma vergonha que não tenhamos um unico estabelecimento d'este genero, digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam o nosso paiz. E maior vergonha é que não exista, podendo e devendo existir, independentemente do recurso ás excavacões muito dispendiosas. Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata, bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino, sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em excavacões casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos conventos.

Por iniciativa, e póde dizer-se por unico esforço do sr. J. Possidonio Narciso da Silva, fundador e presidente da real associação dos architectos e archeologos portuguezes, deu começo esta associação no edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo, onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, porém, de muitas condições para preencher os fins a que são destinadas similhantes collecções, sendo uma das principaes, a organisação scientifica e chronologica, e conveniente collocação dos objectos alli reunidos. Devo accrescentar, porém, que achando-se alli todos os objectos accumulados e apertados por falta absoluta d'espaço; aquella organisação e conveniente collocação estão dependentes de uma obra importante e despendiosa; a cobertura das naves da egreja.

Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se estivessem reunidos formariam uma collecção mui curiosa, e de certa importancia. Tambem são dignas de menção as collecções de fosseis, instrumentos e utensilios prehistoricos da secção geologica, no edificio do extincto convento de Jesus.


Pois que fui mais prolixo do que desejava no quadro historico, que fica traçado, procurarei ser conciso nas noções geraes da sciencia archeologica, noções que mr. Du Caumont julgou desnecessario explicar n'este livro.