No século VII a dominação árabe trouxe à península hispânica a luz imensa da civilização daquele povo, grande no comércio, na agricultura, nas artes, nas ciências, nas indústrias, em todos os ramos finalmente da atividade humana. A fabricação dos azulejos devemo-las às lições dos nossos dominadores.
Os persas, de quem os árabes haviam colhido por sua vez a técnica do fabrico e coloração deste género de cerâmica, tinham-se inspirado nas produções vegetais de mistura com a representação de animais; os árabes, obedecendo às prescripções religiosas do Corão, tiveram de banir a figuração da natureza orgânica, e foram buscar os recursos decorativos a combinações geométricas das mais engenhosas. Este é o principal característico da cerâmica ornamental dos árabes; não se deve, todavia, pôr totalmente de parte o azulejo que veio mais tarde, em que o artista tomou para modelo plantas e flores, sem, contudo, as copiar exatamente no talhe ou na coloração própria.
Um dos principais historiadores árabes, cujas obras escaparam à sanha rancorosa cristã, dá-nos notícia da fabricação dos azulejos em Espanha. Diz-nos ele:
«Achamos também que havia no Andaluz várias fabricas de al-mafssass, que, no Oriente, é conhecido pelo nome de al-foseyfa'sa' (mosaico), assim como de uma espécie de tijolo, que usam para ladrilhar os pavimentos, chamado az-zulaj. Os azulejos eram feitos de todas as cores alegres e parecem-se muito com os al-mafssass. Exportam-se em grandes quantidade para o Oriente, e são usados em vez de lajeado de mármore, para fazer sobrados de mosaico, revestir chafarizes e para outras ornamentações neste género.
Aqui temos, pois, esta indústria de tal modo desenvolvida no Andaluz (Espanha) a poder concorrer com os seus produtos aos mercados do país de que era originária.»[27]
O Sr. Simonet[28] quer só que o azulejo seja de origem hispano-bizantina, mas até o género de mosaico chamado entre nós embrechado, e, no seu furor mourofóbo, pretende que a transplantação do fabrico do azulejo tenha vindo do Oriente para Espanha independentemente do elemento árabe.
Diz ele: «De origen hispano-bysantina son, de nuestro entender, en el nombre y en la realidad, los azulejos, ou mosaicos de piedras menudas y de piezas de barro cosidas y esmaltadas que con tanta profusión y belleza adornaban los edifícios arabigo-espailoles a diferencia de los orientales[29], aunque el vocábulo azulejo no viene del adjectivo azul, como algunos han imaginado, sinó del arabigo-hispano azzulaích ó azullaich, este a su vez es corrupción del latino-greco azurotum[30], más bien del bafo-latino azaroticus, applicado por un célebre escritor francés del siglo V a las piedrecitas de los mosaicos y azulejos azaroticus-lapillus».
Até aqui estes autores só nos dão notícia do azulejo liso de uma só cair em cada lâmina, empregando-se mais geralmente na coloração o branco, o azul e o verde, também se variavam as dimensões e contextura, e era da combinação destes elementos que se formaram os mosaicos, de que na Bacalhôa há diversos exemplares.
Com a dominação árabe também a Sicília recebeu as suas lições de cerâmica, tornando-se celebrados os produtos sículo-árabes, como os hispano-mouriscos. Foi decerto por via da Sicília que a cerâmica árabe passou e se desenvolveu na península itálica; todavia, porque a denominação mourisca se tornou efetiva por mais largos anos na Espanha, porque aqui as duas raças comunicaram usos e costumes, e chegaram a confundir-se de modo a haver no país regiões aonde se não conhece a predominante, a técnica e a ornamentação do azulejo adotou as transformações porque os árabes as fizeram passar, conservou mais o tipo e carácter original; na Itália, porém, adotou-se o sistema ornamental, sem se deixar influenciar profundamente pelo estilo decorativo e composição dos desenhos, antes se foi tudo convertendo ao gosto do país, chegando no final o azulejo a ser não só uma chapa quadrada, mas a tomar a fórma do medalhão e de outras peças ornamentais.