O cavado no azulejo, quanto a mim, inventou-se como meio simples de firmar o desenho, facilitar a coloração, augmentar-lhe os efeitos perspetivos e segurar o passo, quando empregado em pavimentos.
Na Bacalhôa há azulejos apropriados para revestimento de todas as superfícies, e em muitos deles é bem clara a maneira italiana da Renascença, ou porque as placas procedam diretamente da Itália, ou porque dali viessem os desenhos e moldes para se fabricarem em Portugal (n.ᵒ 8, 3, 7, 11, 15, 16, 22, 23, 24, 33). Se estes azulejos são notáveis pela delicadeza das figuras, não lhes desmerecem as tarjas, que emolduram as portas e janelas, entre as quais se especializará a cercadura da porta da Casa da Índia (n.ᵒ 5). Esta cercadura houve, em tempo, de ser reformada com outros azulejos do mesmo padrão, mas não passam de uma imitação que não faz honra ao copista nem à fabrica que os produziu.
Serão do século XVII; os primitivos muito se distinguem e poucos já existem, porque a rapina tem sido formidável. Se a cercadura de que falo é de fino gosto, há outras que se lhe querem emparelhar em delicadeza (n.ᵒ 36).
Este género de ornamentação com azulejos, ficou tanto em uso no país e penetrou tanto no gosto português, que não só se fabricavam azulejos em oficinas especiais, mas ainda nas olarias.
Em princípios do século XVII havia em Lisboa treze olarias de azulejo, e ainda mais era produzido nos vinte e oito fornos de louça de Veneza que havia na cidade[31]. O número de fábricas de azulejo é importante, se o compararmos aos fornos e telheiros de telha e tijolo, que eram dezasseis. É de crer que das olarias de louça branca, disseminados pelo restante do país, saísse também muito azulejo, mas falta-me guia que me dirija na importância desta produção.
Se dos azulejos lisos podemos louvar as fábricas e os artistas nacionais pelo escolhido da composição decorativa, pela nitidez dos lavores, pela boa aplicação dos esmaltes, pelo desempenho das placas, escolha dos barros e cozedura, não poderá dizer-se o mesmo dos azulejos de relevo cavado, a julgar pelos da Bacalhôa, e que eu reputo de indústria portuguesa, pois nem o desenhador era fino, nem o oleiro experimentado, como já notei. E foi talvez da dificuldade de alcançar no país assimilações regulares e que pudessem apresentar-se que a tarja da parede do lago foi restaurada com azulejos de igual desenho aos que ali existiam, mas de superfície lisa. Também noutro lugar da quinta se encontram azulejos, puro refugo, pelo escorregamento das tintas e inferioridade do fabrico. Talvez tentativa de algum artífice inexperiente.
XVII
A coleção de cerâmica da Bacalhôa é numerosa e variada, como nenhuma outra conheço e talvez nenhuma haja, fora de museu, que se lhe emparelhe.
Do mosteiro da Conceição de Beja, bem conhecida obra da infanta D.ᵃ Brites, resta ainda o claustro chamado de D. Manuel, cujo pavimento e bancos são forrados de azulejos diversos; da antiga casa do capítulo, transformada para sacristia, vestem as paredes painéis de azulejo differentes, extremados por tarjas; é uma coleção muito interessante e variada, e todos os espécimenes são de relevo cavado. Ali, além de outros, encontrei os n.ᵒs 3, 9, 17, 23, 24, 29, 33 e 37 da Bacalhôa.