Busquei a Conceição de Beja por ser edificação da infanta D.ᵃ Brites, o Espinheiro por ser do meado do século XV, Alvito de época aproximada e a capela de Resende do primeiro quartel do século XVI, em toda a parte encontrei mais ou menos rica ornamentação de cerâmica policrómica e exemplares da Bacalhôa; mas se a Conceição de Beja excede esta em variedade e abundância de tipos, nenhum se lhe sobreleva em escolha de espécimenes e a todos falta o medalhão de médio e alto relevo circundado de molduras de opulenta ornamentação policroma.
Em Évora ouvi eu a um ilustrado cavalheiro, amador do belo, um asserto, que, pela verdade que encerra, não deixarei de registar aqui. Dizia ele: «Dos monumentos os mais terríveis inimigos são a classe clerical, os engenheiros e o tempo. Exemplos: a crasta da sé de Évora, obstruída, pejada, imunda e emparedadas todas as suas belezas pela corporação administradora da catedral; a Conceição de Beja, avariada pelas reparações em execução; o palácio acastelado de Alvito (e a Bacalhôa acrescentarei eu), em que o tempo se casou com o desleixo e o abandono».
XVIII
O palácio e demais construções da Bacalhôa, repito, formam um monumento de alta significação para a história das artes em Portugal. Delimita dois períodos distintos, a arquitetura medieval e o estilo da Renascença.
O género arquitetural que se criou no paíz em nada ali ainda influiu. Se a torre cilíndrica recorda um passado que lhe toca, vêm os acessórios dar a mão ao renascimento que aparece. Nas lógias testemunha a influência do género florentino, em tudo o mais diz-nos que as primeiras lições de classicismo nos vieram da Itália. A proscrição da ógiva lança-nos para fora do período do seu domínio; o pleno cimbre, a janela de verga horizontal e cornija, a nudez de lavores, de rendilhados, de mil acessórios brincados, segredam-nos que a nova arte queria, no seu início, mostrar-se poderosa e intransigente nestas minúcias.
Em 1515 morre Albuquerque, o Grande, deixando largos haveres; seu filho casa por 1520, faz a viagem a Sabóia no ano seguinte, e na sua diversão por Itália conhece o belo, espargido a torrentes por toda a península. De volta ao reino enamora-se do palácio e quinta de Azeitão, propriedade da família de sua mulher, e de certo muito já ali havia de cativante para prender as atenções de quem deixava a Itália. Em 1528 adquiriu por compra a quinta e paços.
As construções cerradas pela cerca de muros da quinta demonstram a ação do gosto italiano na época da visita do filho de Albuquerque àquele país; não será aqui o artista que traça as conceções do seu génio, mas que explana no papel um tipo, de que o proprietário lhe apresenta os lineamentos gerais e que o impressionou na sua viagem.
Vimos que de Bolonha ou de Ferrara trouxe Albuquerque a ideia para as suas casas às portas do mar, a Casa dos Bicos, a sua paixão pela policromia em terra cota invetriata para ornamentação da sua quinta, decoração tão usada por toda a Itália naquela época, aparece claramente na Bacalhôa, aonde a semeou a mão larga nos mais variados espécimenes do género, embora já alguma coisa ali existisse.
Todos os tipos de majólica, aplicados à ornamentação de edifícios, ali se acham representados—o azulejo de cores lisas verdes, azuis ou brancos, para mosaicos e formar o xadrez, o losango, o romboide, grade ou rede—o quadro histórico, mitológico ou simbólico, o azulejo formando só por si uma figura, o azulejo de desenhos combinados para quatro e cinco placas, a rajola de relevo estilo hispano-mourisco, ou renascença italiana, o medalhão de baixo, médio e alto relevo, esmaltado ou nu de revestimento vítreo, a moldura de flores singelas, ou de variada e opulenta composição vegetal, de tudo ali há finalmente, não faltando o busto do fundador, nu de revestimento vítreo para que a camada do esmalte não fosse amolecer as formas esculturais. As estatuetas em barro eram em considerável número, mas atualmente só existe uma e mutilada num nicho do pavilhão central do lago, de que não pode, por desviada, julgar-se do seu mérito.