O gosto de Albuquerque pelos barros cozidos passava a mania; as imagens que, do seu tempo, existem na vizinha igreja de S. Simão são de barro e algumas de grande vulto.

É a Bacalhôa um museu de cerâmica ainda abundantemente provido.

O desprezo total a que tinha sido votada, desde que a administração do morgado caiu na casa dos armeiros-mores, levava-a em breve ao aniquilamento; mas, felizmente, sucedeu ao duque de Albuquerque seu irmão D. Luís, conde de Mesquitela, que, compreendendo o valor daquele cofre de joias, cuida da sua conservação e da reparação do que é possível restaurar-se.

Se um estrangeiro entendido houvesse sonhado o que ali ia de bom, tinha tido ocasião de adquirir para o seu país quanto ali há de transportável e, só com aquela coleção variadíssima, organizar um museu precioso de espécimenes raros de majólicas. O palácio, porque só interessa à arte portuguesa, deixava-o ir na derrocada.

Era tão monstruosa a rapina, tão estúpida a voracidade de alguns visitantes, tão grande a destruição exercida nos barros esmaltados pelos falsos amadores da arte, ou verdadeiros amigos do alheio, tantas as mutilações feitas nos medalhões pelas pedradas do rapazio e pelos tiros de espingarda a que as figuras serviam de alvo, tudo nascido do desleixo inconsciente dos proprietários, que aos amadores do belo só restava o apelo para qualquer governo, que, medianamente cioso do decoro nacional, expropriasse o edifício e quinta por utilidade pública, a bem da arte e sua história. E devia tê-lo feito o governo, quando resolveu adquirir o palácio acastelado da Pena em Sintra.

Ora a Pena, à parte a casa dos monges, é de hoje, pode reproduzir-se amanhã, porque não falta ainda nenhum dos elementos necessários para se levantar outra edificação igual, e julgou-se que a nação a devia tomar para si, quando, se um estrangeiro lançasse mão dela, não podia deslocar o edifício. A Pena é um caso esporádico de arquitetura, um capricho, uma fantasia de um homem dinheiroso. É o edifício belfo nas formas, esplêndido na situação; mas o que nos diz da história da arte portuguesa?...

... Diz-nos que por largos anos ali viveram vida contemplativa uns ascetas, que alcançaram convencer-se de que deste mundo passariam para outro cheio de felicidades. E isto o que pode é matar-nos de inveja pela sorte daqueles felizes por partidas dobradas. Diz-nos mais que houve um rei, que subia àquele monte e olhava o oceano, estendendo ao largo os seus olhares, para ver se apercebia uma vela que lhe trouxesse especiarias da Índia, ou levasse algum islamita, ou israelita de valia, escapado à sanha cruel do monarca. A arte só falia da aptidão artística de um estrangeiro, obrigado pela própria conveniência a permanecer em Portugal, e a quem, para matar saudades da sua terra, ou como recordações do seu país natal, aprouve plantar naquele cerro, em estação já imprópria para o plantio e frutificação, uma árvore da Germânia medieval.

A Bacalhôa, única no seu género num país que a pobreza de espécimenes raros distingue, é o monumento único que firma o renascer das artes em Portugal, e a ara votiva que o acaso fez chegar até nós, para memorar o alto génio de um rei que a história, lisonjeira dos afortunados, apenas representa como um tirano desapiedado.

Se tal monumento continuasse na derrocada em breve desapareceria quanto nele há de famoso para a arte e para a história.