Os Medicis, os Sforza, os Malatesta, os duques de Urbino, os opulentos banqueiros, os papas, os prelados das casas religiosas ricas, as administrações das catedrais, todos à porfia auxiliavam o desenvolvimento das artes, construindo luxuosos palácios, sumptuosos templos e outras soberbas edificações, e para cada uma destas obras chamava-se uma coorte de artistas desse exército numeroso, disperso por toda a península.
II
A Renascença já tinha invadido com vário sucesso todos os estados cingidos pelo Adriático e pelo Mediterrâneo, em alguns já ficava em pleno domínio, mas não lograva ainda transpor os Alpes.
Portugal achava-se sob a influência flamenga e resistia à invasão com os demais países, em que ela dominava. Com o advento de D. João II ao trono entrava um período de paz, e o novo imperador dava às forças do país uma benéfica direção, encaminhada a seguir o desenvolvimento intelectual que ia pela Europa. As espadas de África só serviam ao respeito do herói de Toro, poucos ginetes fiéis bastavam para guarda da sua pessoa. Os arquitetos de Santa Maria da Vitória eram extintos, a escola morta e os discípulos, que ainda restavam, por medíocres, teimavam em conservar as tradições rudimentares recebidas, ou recusavam-se a seguir a corrente, que ameaçava levar no seu turbilhão a velha arte.
O caminho da Índia ainda não era rasgado, a fama das suas riquezas ainda não podia seduzir os ânimos e arrastá-los para o militarismo comercial. Para as explorações marítimas poucos homens bastavam, que mais para ali os levava a glória de vencer os elementos, já que não podiam triunfar de inimigos, do que um pensamento, uma ideia que dominasse o espírito.
Falava-se dos expedicionários ao desferrar das frotas, ou durante os aprestos da expedição, depois recebiam-se as novas apenas como notícias de pessoas, que se haviam julgado perdidas. Entre a saída e a notícia mediava grande espaço; na corte só o rei se ocupava dos que iam em demanda do desconhecido, e a esperança do sucesso só de longe em longe vinha levantar o pensamento para aquelas empresas. Poucos da corte também seriam capazes de compreender o alcance de negócios, a que não eram afeitos, ou que o seu acanhado espírito não podia penetrar.
A revolução pacífica, que ia na Itália, chamava as atenções dos menos ocupados, cativava os ânimos, em que o bailo tinha acesso, atraía algum espírito esclarecido, e nenhum o era mais do que o rei, nem se arrojava mais além do seu meio.
Os arquitetos só traçavam edifícios desengraçados; os artífices já não talhavam na pedra finos rendilhados, não levantavam coruchéus elegantes, nem baldaquinos de aprimorado lavor. O génio artístico esvaíra-se.
Urgia levantar as artes, dar-lhes impulso, fazê-las sair do torpor, em que se tinham imergido. D. João II, grande em tudo, tinha a paixão artística; longe era a Itália, ficavam de permeio os Pirinéus e os Alpes, as comunicações eram demoradas, as notícias distanciadas, mas ao rei aprazia ouvir falar do que ia por aquele país fadado para as artes, dos príncipes italianos, mecenas dos artistas, e mostrava inveja destes personagens, desejando ter no seu reino daqueles génios famosos, como noutras épocas quereria ter babéis e experimentados capitães.
No desejo do desenvolvimento intelectual do país, D. João II enviava ao estrangeiro mancebos prometedores a cursar as letras e as artes, e tanto era o seu amor pela pintura, que nos seus raros ócios fazia desenhar em sua presença, por um moço da câmara, os objetos que a sua fantasia inspirava, e mostrava inveja dos conhecimentos artísticos do seu parente, o imperador Maximiliano, e de outros príncipes[1].