Como Júlio II, como os Medici e outros senhores italianos, que não desdenhavam discutir com os seus arquitetos as minúcias de um traçado, João II de Portugal dava a Pantaleão Dias as linhas gerais do túmulo de S. Pantaleão, que projetava para a catedral do Porto. A magnificência dos Medici e o seu aprimorado gosto andavam em fama. D. João II viu que ninguém melhor do que um dos daquela família podia fazer a escolha de mestre capaz de levantar as artes num país em que elas estavam prostradas, como em Portugal, e foi a Lourenço «o Magnífico» que o rei se dirigiu, pedindo-lhe mestres que pudessem dar lição e ensinamento aos artistas portugueses, traçando e presidindo à execução de trabalhos, que servissem de molde para outras obras e areassem uma escola de artes.
Lourenço de Medici enviou Andrea Contucci, dito Sansovino, célebre plástico, bom desenhador e famoso perspetivo[2], que estaria então na força da vida e em toda a pujança do seu talento. Contucci veio para Portugal por 1485, e demorou-se no país até à morte de D. João II, tendo, entre outras obras, levantado um palácio para o rei, flanqueado por quatro torres.
III
Já houve quem quisesse achar na Bacalhôa rastos do Sansovino. Nada há que venha de reforço a este suposto, firmado apenas na valia (que a tem) do seu andor; nada há também que se lhe anteponha. «Quem quer que fosse o arquiteto era de primeira ordem. Há detalhes que revelam mais do que um simples talento, tem uma palpitação de génio.»[3]
Se não fosse Sansovino o autor do projeto, no tempo que esteve em Portugal, não seria extraordinário que ele, ou outro mestre de Itália, delineasse no seu país, e enviasse para aqui o traçado e os planos do palácio e quinta. Brunellesco, Alberti, Sangallo e outros arquitetos italianos encarregavam-se destes trabalhos.
Não creio que a Bacalhôa seja contemporânea destes homens, como também não creio que nascesse a meados do século XVI. Ao pé temos o palácio dos Aveiros, levantado em princípios do segundo quartel daquele século, que se mostra muito posterior em estilo arquitetónico ao palácio da Bacalhôa.
No Aveiro, está estampada a Renascença clássica, pura nas suas linhas janela com cornija e frontão com busto no tímpano, a mezzanina, pequenos claros, pórtico emoldurado em colunas dóricas com entablamento da mesma ordem, cunhais rústicos. Na Bacalhôa vemos o torre de transição, um estilo fugitivo, a janela com cornija e sem ela, emoldurada em azulejos policromos e intervalada por largos cheios.
A Bacalhôa será talvez a edificação em que se estreou em Portugal o estilo arquitetónico da Renascença, estreia de transição, dando-se de mão à ogiva e a quanto lhe era ligado. Nada tem do estilo manuelino, que ainda não era criado, mas também não obedece a qualquer estilo puro. O palácio é sui generis, talvez a arte Fiorentina transportada abruptamente para aqui, esfumada de umas tintas leves do solar medieval nos torreões, em que se substituiu pela cúpula hemisférica em gomos e com pirâmide no fecho, as obras de defesa, que coroavam os adarves dos castelos senhoriais.
A Bacalhôa será uma correção ao palácio acastelado, quase medievo, construído por D. João II em Alvito para o seu escrivão da puridade, João Fernandes da Silveira. A disposição das salas e aposentos dos dois palácios aproximam-se. A Bacalhôa tem a menos as bonitas janelas geminadas que a nova arte proscrevera, mas em troca deram-lhe as galerias abertas em arcadas, e a mais a elegância e regularidade das fórmas, as tarjas azulejadas a fazer sobressair os portões, e as cúpulas hemisféricas a realçar as torres cilíndricas.