Seu filho Luís foi um fidalgo de notáveis paradoxos, no dizer de Sousa[54], que o levaram aos cárceres da torre de S. Julião. Seu neto João Guedes roubou-a e maltratou-a.

Conta assim o autor anónimo de um nobiliário manuscrito, que tenho à vista[55]:

«João Guedes de Miranda Henriques, sendo muchacho, mal aconselhado de uns criados, entrou em casa de sua avó D.ᵃ Maria Teresa[56] de Mendonça e Albuquerque, de quem ele era herdeiro, e a descompuseram, ferindo-a e maltratando-a infinito, tendo quase oitenta anos, e lhe tomaram as chaves e lhe roubaram mais de 80.000 cruzados[57] entre dinheiro e joias de preço e bons diamantes, que tinha herdado de seu irmão Luís de Mendonça, que foi vice-rei da Índia. Com este cabedal fugiram para Castela, onde se puseram com ele seguramente e, estando já muito pela terra dentro, os dois motores deste negócio, que eram pai e filho, criados, que mal aconselhavam a este cavalheiro, os tentou o demónio a tornarem a Portugal a cobrarem uns duzentos e tantos mil reis, por não estar ainda de todo satisfeita a sua ambição, ou, parece, permitiu Deus, fosse para castigo da sua culpa, porque mal tinham passado a raia, quando, pelas armas, que traziam, os prenderam, tempo a que chegavam as ordens para que os prendessem. Trouxeram-os para a prisão da corte, de onde foram a padecer a forca de Santa Bárbara, em que lhes ficaram as cabeças para memória do seu delito. O furto se tornou a Portugal se lo restituiu, e João Guedes de Miranda Henriques veio oculto e se homiziou em casa do embaixador de França.»

Se Luís de Mendonça foi ambicioso de riquezas, a modo de em sete anos de vice-reinado alcançar cabedal enorme, sua irmã foi uma avarenta, que só viveu para entesourar.

VIII

A D.ᵃ Maria Josefa de Mendonça e Albuquerque sucedeu seu filho Luís Guedes de Miranda Henriques, que outros apelidam de Miranda e Lima, casado em 1673 com D.ᵃ Maria de Ataíde, filha dos segundos condes de Vale de Reis. Por seu pai cabia-lhe o cargo de estribeiro-mor, todavia, o regente D. Pedro e ainda depois de entronizado, recusou-lhe a posse do lugar, e tão solto foi de palavras e ações por este facto, que lhe valeu ser encerrado na torre de S. Julião.

Em 1712 ainda havia filhos menores de Luís Guedes, de quem este não tinha a tutela. No dia 2 de dezembro, Manuel Carvalho de Ataíde[58], moço fidalgo da casa de sua majestade e comendador da ordem de Cristo, parente de Luís Guedes, data de Sernancelhe uma procuração a Pedro Vieira da Fonseca, residente na quinta de Azeitão (Bacalhôa), para poder comprar um pinhal para o menor Francisco de Assis, e outra a Manuel Salgado de Araújo, advogado da casa da suplicação, para cobrar de Luís Guedes de Miranda 80$000 reis mensais de alimentos para cada um dos filhos menores deste, compreendido Francisco de Assis, dos quais Manuel Carvalho era curador.

Não parece que Luís Guedes se detivesse na sua quinta, ou mesmo na Extremadura, pois se encontram até fins de 1718 procurações para determinados negócios do morgado datadas de Murça[59].

De Luís Guedes de Miranda e D.ᵃ Maria de Ataíde nasceram: