IV

Os esforços de D. João II para o restabelecimento das artes no reino não foram improfícuos. A lisonjeira de muitos e a ilustração de alguns vieram-lhe de auxílio. A sociedade mais culta do tempo e os cortesãos compenetravam-se do sentir do rei, as atenções fixavam-se no movimento artística do Itália, todos colhiam notícias das criações dos mais distintos escultores, das construções dos mais hábeis arquitetos, e andavam na boca de todos os nomes dos mais bizarros senhores, que faziam erguer sumptuosos palácios, luxuosas e elegantes valas, ornando-as de bem modeladas esculturas, de bem talhadas estátuas e enchendo-as de preciosas coleções de objetos de arte.

Os mestres estrangeiros trouxeram para Portugal boa lição, que aproveitou, vindo a aparecer no seguinte reinado um género arquitetónico de transição, que modernamente se chamou estilo manuelino.

Não quebrou a nova criação com todas as tradições da velha escola, mas também se não prostrou humilde aos pés da vencedora. Foi uma capitulação em que os vencidos saíram com todas as honras da guerra.

Belém, a Misericórdia de Lisboa e outras construções de menos quilate são o desfilar da guarnição capitulada em presença do vencedor assombrado de tão grandes brios, louvando-se talvez de ter dado lugar ao famoso sucesso, se não sentindo impulsos de alistar-se nas fileiras dos que lhe passavam em frente.

A criação portuguesa levou vantagem às mais alianças arquitetónicas ensaiadas em alguns estados italianos renitentes às lições da nova escola.

Veneza tinha tentado aliar a ogiva e o pleno cimbre, a ornamentação gótica, a oriental e a clássica; mas a criação portuguesa levou-lhe a palma, alcançou originalidade e envolveu de tal modo as formas, amalgamou e fundiu tão unidamente os moldes, empregou com tanta propriedade o cordame, que parecia já simbolisar as nossas empresas marítimas, para ligar e estreitar partes, que tenderiam a desunir-se, para atar e prender nervuras, que mais tem de um estilo novo, do que é filho mestiço de quanto até ali era criado.

Afortunado D. Manuel! A mais benevolente estrela parece ter alumiado o seu nascer. Seu cunhado Fernando de Bragança comprou-lhe com a cabeça a liga dos grandes, seu irmão Diogo abriu-lhe com imprudências o caminho do trono, o veneno dos sicários, seus cúmplices, sacudiu para o túmulo o cadáver da princesa D. Joana, que poderia embaraçar-lhe o trânsito e prostrou sem vida D. João II, seu cunhado, primo, protetor e rei, vindo assim o famoso bandoleiro duque de Beja a ter um reino, a refocilar os seus instintos beluínos na viúva do filho malogrado da sua vítima, a encontrar criada e escolhida uma pleiade de grandes homens, como Albuquerque e outros, que lhe deram o senhorio de um novo mundo, e a ter a paternidade de um código de leis já preparado, e de um estilo arquitetónico e ornamental nascido dos perseverantes e inteligentes esforços do rei famoso, do homem, que ele, sua irmã e sequazes lograram vitimar.

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