SERMÃO
CONTRA O FILOSOFISMO
DO SECULO XIX.


In malevolam animam non intraibit Sapientia.

Sap. Cap. I.


Não ha, nem póde haver coiza mais aborrecivel, e mais detestavel aos olhos da boa razão, que a entonada soberba de hum malevolo ignorante. O homem sisudo não póde olhar sem indignação para essa interminavel cohorte dos que neste seculo se dizem livres pensadores, quando contempla o soberbo, e ultrajante gesto, ou amargo surrizo com que elles{8} olhão para o homem de bem, que fiel a seus principios, e consequente em sua crença, e conducta, respeita sua Religião, e a reconhece divina em sua fonte, e sua origem. Deste rizo, e deste soberbissimo signal de huma ultrajante compaixão, quantas vezes tenho eu sido testemunha, e tambem objecto no meio desta Capital! Eu julgava que apenas aconteceria isto no meio das praças da nova, e mais prostituida Babylonia, mas eu o vi realizado tambem em Lisboa. Se o medo, e o terror de hum justo castigo continha, e exteriormente refreava estes estólidos motejadores no centro de hum Governo Catholico, e vigilante, elles deixárão cahir de todo a máscara, e mostrárão sem pejo a impudentissima face em quanto sentimos o ferreo jugo do cáos revolucionario, que nos invadio, e tyrannizou por nove continuos mezes. Então, então esses malevolos academicos do segredo, e das visagens, imaginando, vertiginosos e illusos, que havião levantado, e firmado{9} o estandarte de sua nem realizada, nem possivel liberdade, insultárão os verdadeiros fieis, e os taxárão de fraqueza, e pusillanimidade, e os titulos menos affrontosos que lhes davão, erão os de fanáticos, crédulos, e supersticiosos. E quem serião estes miseraveis entusiastas? Por ventura alguns Celsos, Jamblicos, ou Profirios doctos, e profundos Filosofos successores em Athenas, e Alexandria daquelles famosissimos oraculos do Epicurcismo, e Platonismo? Algum daquelles que apoiados com a incredulidade, e poder de hum Imperante como Julianno pertenderão com seus escriptos, e doctrina solapar os alicerces do nascente Christianismo? Seria honrar, e desvanecer excessivamenre estes átomos de sabedoria, se eu os comparasse a tão formidaveis, e terriveis talentos da antiguidade. São verdadeiramente huns átomos, e perdidos no espaço immenso dos malévolos; huns obscuros adeptos do Illuminismo cobertos agora de hum ridiculo{10} eterno com os contrarios effeitos daquellas a que elles chamavão profundas theorias de moral, e de politica: esmagados agora debaixo do pezo das vergonhosas derrotas do monstro em que confiavão, e que por certo ignora sua existencia, e do qual não podião, como a experiencia lhes diz, esperar mais que opprobrios, ferros, escravidão, e morte. Huns famintos, mas vaidosos mendigos, que esperavão entrar na divisão da preza dos sanguinarios Tigres, cuja avidade, e cobiça insaciavel até se rouba a si mesma para se saborear no roubo, e não haver intervallo neste seu natural exercicio: huns ociosos perennes, que nesses asilos da embriaguez se asoalhão a si mesmos por fortissimos espiritos, e não deixão a bocas alheias a trombeta de sua fama, e do renome de seus relevantes, e sublimissimos engenhos, homens finalmente, que sem mais estudo, sem mais Universidade, sem mais applicação, sem mais livros que o Monitor, sem mais academias{11} que as conferencias das trévas nos subterraneos da crápula, e das enigmaticas, e symbolicas ferramentas, ousão clamar, que nós os verdadeiros fieis, acreditando, e respeitando nossos santos, e adoraveis dogmas, não fazemos de nossa natural razão aquelle uso que podiamos, e que deviamos fazer. Que dando-nos a Natureza olhos para ver, desgraçada, e voluntariamente nos fazemos cégos; e que querendo ser humildes, e obsequiosos crentes, nos tornamos pessimos raciocinadores, que a nossa crença faz resvalar a dignidade do ente pensador para a classe do bruto, que deshonra a humanidade, sepulta, ou estraga o mais precioso talento que nos déra o Creador, que vergonhosamente nos classificamos abaixo dos animaes rudes, acima de cuja esféra estavamos constituidos pelas faculdades intellectuaes. Eis-aqui o que eu mesmo escutei, o que eu mesmo soffri; e ouvindo discorrer tanto a estes livres pensadores, nunca pude arrancar de{12} suas eloquentissimas linguas a causa, e o motivo desta tão filosofica accusação. Mas estas idéas ôccas expostas em sesquipedais expressões, que parecem destiladas pelo vagaroso, e enfatico intervallo que ha entre huma, e outra, e apoiadas com os estrondosos nomes de Raynal, Voltaire, e Helvecio, e proferidas diante da juventude inconsiderada, ociosa, e irreflexiva, obrigão a se formar de nós aquelle conceito, que se forma de hum rebanho de animaes brutos, e estupidos que se despenhão, e precipitão cégos por aquelles combros por onde vêm arrojar-se o primeiro, ou por onde os chama o silvo de hum pastor, ou a sombra de huma vara. Aquelles que assim nos tratão, e insultão são acclamados, e tidos em conta de espiritos pensadores, amigos do bom siso, e defensores da verdade, e até redemptores da oppressa razão, que sabem magistralmente purgar-se a si, e aos outros de preoccupações defendendo-os dos ataques da ignorancia,{13} do fanatismo, e infantil credulidade.

Não sei, Senhores, se podereis ter ouvido em paz, e sem se vos desprender o fogo da ira, e da indignação, coizas tão vis, e tão affrontosas; mas socegai, que talvez seja este o dia do triunfo mais illustre da nossa Fé contra o Filosofismo do Seculo XIX. Eu vos amo, prezo, e respeito tanto como a verdade, e discorrerei de maneira que empenhe todas as forças da razão, e da eloquencia, e farei que tão escandalosas vilanias se não digão mais, ou se não digão impunemente aos verdadeiros fieis. Mas porque caminho dirigirei eu os passos do entendimento a esta baliza? Os apologistas da Religião nada tem até agora omittido: são conhecidos seus escriptos. Holland, e Valceschi respondêrão a Mirabaud, Bergier a Freret, Abbadie, e Hautevile a Wolaston. A Celso respondeo Origenes, a Juliano S. Cyrillo, a Profirio o maior de todos os Oradores, Nazianzeno: eu responderei{14} a todos. Os modernos Incredulos não são mais que serviz, e miseraveis éccos destes antigos sofistas: e crêde que tem mais pezo, e força hum fragmento de Profirio, ou de Celso, que toda a supposta, formidavel artilharia encyclopedista: e hum Occelo, e hum Timeo mais que o confusissimo systema da Natureza. Estando pois todas as varedas batidas, e todos os meios empregados, eu não posso dizer-vos que seguirei hum caminho novo, seguirei o mais plano, obvio, e descoberto, e que possa ser pizado até pelos entendimentos menos agudos, e penetrantes sem o afan de profundas especulações. Eu confrontarei o uso ou emprego da razão natural, que fazem os verdadeiros fieis com o uso, e emprego, que da mesma razão fazem os incredulos. Constituirei de huma parte estes estrondosissimos panegyristas, e redemptores da razão, que segundo elles dizem, e assoalhão, lhes serve para ver, e conhecer todas as coizas sem{15} ter necessidade da Fé, e que desprezão, ou regeitão magistralmente tudo o que ou não comprehendem, ou não vêm com a mesma razão. D'outra parte constituirei os verdadeiros crentes os mais rendidos, e sugeitos ás suas decisões, e mais apartados do espirito de duvida: e comparando, ou confrontando hum com outro partido, fazendo entrar em fechado campo os humildes, e simplices crentes com os soberbissimos e eruditissimos Sofistas como víra o vale de Therebintho de huma parte hum Gigante, e d'outra parte num joven pastor, farei ver, e conhecer victoriosamente a qual dos dois convenha o brazão e o timbre de fazer uso, e o melhor uso das faculdades intellectuaes, qual dos dois honre, ou qual avilte a razão, e a humanidade, e qual dos dois mereça a compaixão como enganado, e obtuso, qual seja digno de louvor como atilado, e consequente.

Conheço, Senhores, que a vantagem está da nossa parte, e que se tornará{16} evidentissima com o meu Discurso, e tambem conheço que assim como os mysteriosos das vizagens, e dos signaes da esquadria se obstinão em planos de profunda tactica e politica sublime para igualizar, republicanizar, domocratizar, e fraternizar o Mundo depois que elles mesmos, e não outros, o encadeárão aos pés do monstruoso despotismo de hum obscuro aventureiro, sem que se envergonhem nem do mesmo ridiculo de que estão cobertos; tambem para se vingarem da verdade que lhes dér nos olhos, se obstinarão ainda mais na impostura, e no engano. Se algum destes miseraveis existe no meio deste immenso auditorio, e se tem trazido para aqui o compasso para medir o que não entende, esperando escutar as frazes do neologismo de seus ridiculos periodicos, eu lhe peço, que se digne hum pouco de desfranzir as arqueadas filosoficas sobrancelhas, e ouvir por hum instante hum Christão desapaixonadamente, e desenganar-se-ha,{17} que só no seio do Christianismo, e no regaço da Fé se acha o Orador sublime, o Filosofo profundo, e o homem da razão, e da verdade.

DISCURSO.

Dizem pois os mysteriosos censores, e não tem jámais deixado de o repetir o mais insignificante folheto da escola tenebrosa, que nós os Christãos nem fazemos, nem queremos fazer uso de nossa razão natural; que quando se trata dos mysterios da Religião, accreditamos, e emudecemos; que não damos conta aos outros homens dos motivos da nossa fé; que conservamos como encadeadas as faculdades racionaes, e intellectuaes sem entrarmos no conhecimento analytico destes mesmos motivos. Tal he a primeira calumnia, que envolta em rebombantes{18} periodos, sahio do famoso Club de Holbac, e havia de muitos annos antes apparecido no impio Livro O Militar Filosofo; tal he o primeiro improperio que vem na vanguarda dos impugnadores, e refutadores analyticos da verdade da Religião Christã. Tal he o principio puerilmente rebatido até ao enjôo, em tantos livros de identica substancia, de identica doctrina, e até de titulos identicos, e que já desafião a irrisão do homem sisudo, vendo que aquellas cégas, e tenebrosas Toupeiras não sabem mais que hum caminho subterraneo; Systema da Natureza; Filosofia da Natureza; A Natureza; Religião da Natureza; Codigo da Natureza; Moral da Natureza. Tal he o grande achado com que se esmaltão os noventa e nove volumes do palavrosissimo Sofista de Fresney. A estes malevolos oraculos, em que não cabe a sabedoria, eu poderia já dizer as mesmas palavras que o Martyr Luciano disse em Antiochia ao soberbo{19} Proconsul: Sabe, que nós os Christãos não nos dirigimos, e levamos como tu julgas por huma indisputada, e paternal tradição como fazem os teus Filosofos. Deos he o Auctor da nossa crença, e Deos nos falla de Deos. (Euseb. Hist. Eccl. Liv. 9. c. 6.) Isto poderia fazer emudecer os monstros, mas comecemos de mais longe.

Sabei, ou não o affecteis ignorar, que os primeiros annunciadores do Evangelho, tiverão á frente dentro em Jerusalem os mesmos Hebreos incredulos, e pertinacissimos, e que a estes mesmos Hebreos se disse, e se provou, que o alimento da nova crença em o Christianismo era muito racionavel. Sabei, ou não o affecteis ignorar, que o mesmo Apostolo, que havia sido perseguidor, fallara ao Areopago de Athenas, e aos Filosofos de Roma, e que dissera, que o obsequio, que nosso entendimenio fazia á Fé, era muito racionavel. Por ventura o Areopago de Athenas, celebradissimo por sua sabedoria, e prudencia, e as{20} Academias da douta Grecia, e soberbissima Roma erão ajuntamentos de gente escolhida, ou capaz de se deixar embair de admiração pela doctrina de Paulo, e de abraçar sem escrupuloso exame, e sem huma muito filosofica discussão os elevadissimos mysterios, que elle lhe propunha? Que injustiça he esta dos fataes encyclopedistas, e seus adeptos, cujas ramificações se estendem tanto pelos domicilios da crápula, e politica desta Capital! Porque alguns humildes idiotas, e medrosos dos astutos, e capciosos sofismas emudecem aos altisonantes nomes de Pitaval, e Raynal, ou dizem simplesmente que accreditão, fazer commum a todos, e até a mim, esta linguagem, constituindo de seu plenissimo poder ao som de altas punhadas nas marmoreas bancas huma enorme distancia, e huma irreconciliavel inimizade entre o discorrer, e o accreditar! E se eu vos fizer ver, oh malevolos, e incapazes da luz da verdadeira Filosofia, que nenhum dos Filosofos{21} antigos, e modernos fez tanto uso da natural razão em seus principios, e opiniões, quanto faz em sua Religião hum verdadeiro crente? E se pelo contrario eu vos mostrar com evidencia que não existe hum individuo, que menos empregue a razão, ou que a empregue mais despropositadamente que hum incredulo do estupido rebanho dos fortes pensadores? Eu já poderia cortar de hum golpe a grande questão, constituindo-vos diante dos olhos a pueril differença dos innovadores em materias puramente Filosoficas, e perguntar-vos se he mais chegado á razão o systema de Taliamed, ou o de Delisle sobre a formacão do Universo, e producção das creaturas, se a cosmogonia de Moisés? Se he mais conforme aos dictames da razão natural o systema de Buffon, que pertende, que huma pancada dada por hum Cometa no corpo do Sol, das lascas que saltárão se fizerão todos os globos que em torno delle girão com tão compassados, e{22} Regulares movimentos, se a creação do mesmo Sol, e dos astros pela voz de hum Deos Omnipotente como nos declara Moysés? Mas deixemos por agora esta confrontação de objectos particulares para procedermos com methodo em materia de tanto momento, e consequencia; e conheceremos quaes sejão os cégos, e os inconsequentes.