Eu me persuado que estes zelosissimos Apostolos da razão não são tão encarniçados inimigos da crença Christã, que em odio da mesma crença queirão abolir, e exterminar de todo a mesma fé humana; nem se poderia entrar em argumento com estes filosofantes, se negassem este primeiro, e evidente principio: e tambem me persuado, que se não póde imaginar num homem nem mais irracionavel, nem mais infeliz do que aquelle, que vivesse com o firme presuposto de não dar jámais credito a outro homem, que falle, ou escreva, salvo se sua escritura, e suas palavras não forem immediatamente apoiadas com o actual,{23} e perenne testemunho dos sentidos. E se he bom uso, segundo lhes oiço dizer, aquelle que se faz da razão humana accreditando os homens que fallão, ou escrevem, julgo, que não dirão, que he mao uso aquelle, que se faz da razão accreditando a Deos. Eu creio, que este será chamado por elles mesmos o uso mais perfeito, mais excellente que se possa fazer da faculdade racional, pois vêm, que assim discorrêrão, e praticárão não os idiotas, e simplices crentes, mas hum Newton, hum Locke, e hum Pascal. Sim, dizem os mysteriosos, ou ridiculos iniciados, se esse Deos existe, e, se acaso existindo, esse Deos fallou... Não se dêm tanta pressa, Senhores, eu sei que até esses limites chega toda a sua subterranea, tenebrosa, e escondida illuminação. Trataremos ainda destes dois grandes objectos, por agora bastará ver, que se os pensadores fortes acreditão mais os homens que Deos, e se nós acreditamos mais Deos, que os homens, temos{24} da nossa parte huma incomparavel vantagem, e igual áquella que tem hum homem de bom siso sobre hum varrido mentecapto. Creio, que esta duvida dos mysterioros umbriferos sobre a demonstrada existencia de Deos, he huma especie de espantalho, que me tem querido pôr, pois o mais superlativo Veneravel, e o do mais empinado cabeço do Libano, sabe muito bem, que hum verdadeiro Atheismo depois de se haver sofisticado tanto, ao menos para o estabelecer como provavel, em os dois confusos volumes do inintelligivel Systema da Natureza, segundo a confissão até do mesmo Vanini, e Spinosa, he hum verdadeiro delirio. He justo, que os Senhores politicos tenebrosos procedão, e argumentem de boa fé, e que não sáião de suas trincheiras, que são as do Deismo, e não as do Atheismo, e presuposta a verdade que elles absolutamente se não atrevem a negar, que existe hum Deos, cujas provas a priori até agora não tentadas, eu produzirei{25} bem depressa em hum Tratado particular, para consolação da razão humana; eu me não devo obrigar agora a outra demonstração mais, que á demonstração de ter fallado aos homens. E quantas vezes, e de quantas maneiras tem elle fallado destes dogmas, que nós accreditamos, e desta Religião, que sós professamos? Por que meios tão maravilhosos, tão estupendos não tem elle annunciado aos mortaes seus profundos mysterios, as Leis, e os Decretos de sua immortal vontade? Fallou primeiro muitos seculos antes pela lingua, e pela penna de alguns homens, que tão exactamente annunciárão, e descrevêrão os futuros acontecimentos desta Religião, e do seu Auctor, bem como os mais imparciaes, e fieis Historiografos descrevem os factos presentes, ou á pouco acontecidos debaixo de seus mesmos olhos: e estes futuros acontecimentos pontualmente verificados, além de seres contingentes, erão destituidos, (conforme a capacidade do entendimento{26} humano) de toda a apparencia, e probabilidade de se verificarem: oppostos a todos os raciocinios, a todas as conjecturas humanas, a todo o systema dos tempos em que se escrevêrão; e além disto repugnantes entre si, como são repugnantes, e apparecem contradictorios em huma mesma personagem, em hum mesmo culto; pobreza, e grandeza; exaltação, e ignominia; throno, e patibulo; desterros, e conquistas; estragos, e multiplicação; perseguições, e victorias. Fallou em segundo lugar, pela boca de seu mesmo Filho, pondo por elle fim evidentissimamente á primeira alliança, e juntamente ao Altar, ao Sacerdocio, e ao Principado de huma lei figurativa, e só permanente antes da realidade: e dando principio nelle, e por elle á nova alliança, conductora de verdadeiras bençãos a todas as Nações, conforme os clarissimos vaticinios de todos os Profetas. Fallou com á voz de huma grande parte do Mundo, que passou rapidissimamente{27} do culto idólatra, que era a Religião dominante, e quasi universal á crença Christã; dos encantadores deleites á temperança Evangelica; das soberbas riquezas á desprezivel pobreza; do ambicioso commando á humilde sugeição, bastando doze homens simplices, e ignorados para fazerem esta moral revolução por toda a parte do immenso Imperio Romano. Fallou com a voz de huma grande multidão de homens literatos do Gentilismo, que conhecendo, sentindo, e admirando a santidade desta Religião, e a sublimidade destas doctrinas, julgárão huma rematada loucura sua antiga sapiencia, e se tornárão como hum Justino, de Filosofos Pagãos em Theologos, e Mestres do Christianismo. Fallou finalmente com o sangue de hum numero portentoso de Martyres, cuja constancia acompanhada sempre de hum silencioso, e pacifico soffrimento excede todas as forças da humana natureza, nem cabe nos confins da humana Filosofia.{28}

Agora eu vos pergunto, ó espiritos incredulos, ó mysteriosos pensadores, grandes columnas dos Liceos centraes, e dos Printaneos universaes, ó eruditos profundos em Monitor, e mais nada; ó estupidos sequazes do Filosofismo Wandalico, e revolucionario, quem vos tem fallado, quem vos tem feito pensar, e crêr cousas contrarias aos principios, e dictames desta minha fé, na qual se observa, e se escuta manifestamente a palavra de hum Deos, que fallou aos homens? Nós somos iguaes nisto só: Eu creio, vós accreditais. Porém nós somos differentes nos motivos, nos auctores, nos testemunhos, eu, da minha crença, vós da vossa incredulidade, e futilissimas duvidas. Dizei-me pois, quem sejão aquelles que vos tem fallado de viva voz, ou por escripura? Ah! vós vos correis, e envergonhais de os nomear! Tambem eu me envergonho, e corro de proferir seu nome, para que não julgue, ou se não persuada algum idiota dos doirados crapulosos{29} domicilios de Lisboa, que eu me digne de instituir huma confrontação entre os vossos mestres de Fé, e os meus. Seria fazer o mais injurioso parallelo nomear Freret, Boulanger, Diderot, e d'Alembert, e depois os mais sublimes Profetas, e os Santos, e doutissimos Mestres do Christianismo, ainda no seu berço, como hum Origenes, hum Athanazio, hum Tertuliano, e hum sublimissimo Nazianzeno. Direi sómente em geral, que estes Coriféos, Enciclopedistas, e Oraculos do Filosofismo são crentes de propria invenção, e mestres de proprio moto, trepados em pestilenciaes cadeiras, mestres sempre fluctuantes, sempre incertos, sempre discordantes entre si, sempre contradictorios comsigo mesmo como hum Jaques, que em huma pagina exalta o Evangelho como huma producão divina, e logo n'outra pagina o deprime como num parto da simplicidade, e do Fanatismo: mestres, que se da sua crença ou de seus sofismaticos{30} escritos dependesse o mais pequeno, e o mais insignificante negocio domestico de seus discipulos, ou alguma de suas terrenas vantagens, ou fico que a todos os de sua escola pareceria summa imprudencia fazer-se incredulos sobre a sua honrada, e scientifica palavra.

Mas não he este o lugar para esta discussão, he tempo sim de confrontar uso de razão com uso de razão, o uso que eu faço com o uso que vós fazeis, ou vos considerei como discipulos, ou vos assoalheis como irmãos terriveis, e veneraveis: e se esta disputa terminar em desvantagem vossa, sereis obrigados a confessar racionavel a minha fé, depois que tantas vezes a tendes escarnecido, e me tendes provocado, e até reprehendido como rebelde ao bom sizo, como desprovido de razão, e até ingrato á humanidade. E porque? Oição este porque os Povos mais selvagens, e incultos da terra, e digão senão he nova até entre elles{31} tanta extravagancia, e tanta brutalidade! Porque a despeito de hum arbitrario fabricador de systemas, de hum arguto, e sagaz filosofante, de hum fantastico pensador, tenho dado credito, e o dou ao Supremo Ser, á Suprema, e primeira verdade, que fallou em todos os Seculos, que fallou em todas as lingoas, que fallou em sua propria pessoa, ensinando-nos por si mesmo dogmas unidos, e ligados entre si com hum laço maravilhoso, e, se nem todos são accessiveis ao entendimento humano, são todos conformes aos dictames da recta, e natural razão.

O que acabo de dizer, que a minha fé, e a minha crença tem alguns artigos que parecem inacessiveis ao entendimento, humano desabafa alguma cousa meus implacaveis accusadores da consternação, e aperto em que os lançou a primeira parte da indicada confrontação: porque, se he verdade, dizem elles, como eu confesso, que a Religião tem alguns dogmas{32} não perceptiveis ao entendimento humano, eis-aqui porque eu Christão, a respeito dos mysterios da Fé, sou obrigado a renunciar o lume da razão natural: em quanto nós... Em quanto vós, oh! Pitavais, oh! Rainais! sois obrigados a renunciar o lume da razão natural a respeito dos mysterios da Natureza. Esta minha resposta assim vibrada, talvez seja pouco sucosa, e muito restricta, he preciso que eu a exponha com mais perspicuidade, e extensão.

Assim como he hum indispensavel dever do homem pensar segundo a razão natural, tambem he hum dever indispensavel do mesmo homem conhecer os confins, ou as balizas que a Natureza constituio a esta razão; e ainda que exacta, e precisamente se não possão determinar quaes sejão estas balizas, conhece-se com tudo que existem muito á quem das cousas invesiveis, e imateriaes. E que conta se dá a si mesma esta tão orgulhosa razão das cousas corporeas{33} hum pouco superiores, ou distantes dos nossos sentidos? Que conta se dá daquellas mesmas cousas que temos entre as mãos, e que com o olho armado de lentes subtilissimas examinamos todos os dias? Que razão nós damos do movimento de hum insecto, da sobida de huma lavareda, da tendencia de huma pedra para o centro da gravidade, da respiração de hum animal, do fenomeno regular do fluxo, e do refluxo, da causa immediata do magnetismo, dos espantosos effeitos da electricidade, das fases da lua, da marcha excentrica, e irregular de hum Cometa, do movimento de hum Planeta, da sua acceleração na razão inversa do quadrado da distancia ao centro da revolução? E quem seria tão desasisado que em lugar de confessar limitada a sua razão, negasse pertinazmente a existencia destes objectos porque os não comprehende? Que conceito formariamos daquelle profundo pensador, que porque os não entendia{34} os julgasse, e reputasse a todos outras tantas imaginações sem fundamento, ou outras tantas illusões da fantazia, e dos sentidos? Não se dirá de hum menino, que tocasse apenas o septimo anno de sua idade, que não usa da sua razão, e que injuria a Natureza que lha communicou, porque senão levanta com o entendimento a especular os mysterios, e a resolver os problemas da mais recondita Filosofia? Dir-se-ha com verdade, que considerando a molleza de suas fibras, e a immaturidade de seus orgãos, estes pensamentos altos, e estas profundas especulações não são ainda para elle, e que muito faz, attendida a sua idade, se se adianta hum pouco em o material conhecimento das letras, e em huma superficial combinação das syllabas. E se este menino por não poder penetrar, e conceber sciencias maiores que estes seus primeiros rudimentos da leitura, negasse que existião mais sciencias, e mais reconditos conhecimentos{35} das causas, e dos effeitos, todos se ririão, e lhe não darião o nome de louco em attenção á sua muito tenra, e delicada idade. Direis que eu discorro com clareza, mas he porque se trata de huma razão tenra, e noviça, mas que o argumento não tem força onde se trata de huma razão perfeita, e chegada á sua devida maturidade. Seja embora a razão madura, e perfeita, dizei-me póde ella acaso transgredir seus naturaes limites? Póde acaso deixar de ser razão anuviada do sentido material, e céga para todos os objectos que não forem corporeos? E não são próvas desta verdade alguns incredulos escarnecido por vós mesmos, por terem a affirmado como Mirabaud, que nada mais existe em o Universo, que corpo, e materia: ou por haverem affirmado que esta materia he Deos, que esta materia he a Providencia, que esta materia he aquella immaterial substancia, Arbitro supremo, e separado da Natureza, que eu, simples, temo,{35} e adoro como hum ser infinito, de ordem superior, e todo espiritual? Lembrai-vos, que he identico o vosso caso, e o do tenro menino, que porque não tem entendimento capaz de formar idéas mais sublimes, cuida que toda a sciencia humana consista em saber contar hum pouco melhor, e em combinar com mais facilidade algumas syllabas materiaes.

Torno outra vez ao campo com as empunhadas armas do parallelo, e vos peço, que me digais se acaso seja honrar a humanidade, ou pizalla, e desprezalla furiosamente depois de ter com mil provas conhecido a limitada capacidade da razão, até no conhecimento, e analyse das cousas sensiveis, que são de sua immediata jurisdicção, atrribuir-lhe tanto dominio, e dar-lhe huma vista tão aguda, e penetrante, que nem das cousas invesiveis, nem da Natureza Divina, nem das Divinas operações, se não deva acreditar, nem mais, nem menos, senão aquillo que a mesma{37} razão póde comprehender, e isto com tanta segurança ensinado pelos Veneraveis aos adeptos dos primeiros gráos, ou dos primeiros momos, ou visagens, que quem pensar d'outra maneira se deva logo constituir á carga cerrada na classe dos brutos animaes, desprovidos de razão, e de conhecimento. E he isto conhecer, como he de obrigacão de todo o mortal raciocinante, os limites do entendimento humano, e do humano discurso? Em que direis vós que estes Veneraveis, ridiculamente mitrados, annunciando enfaticos o ramo d'Acacia, e que a carne deixa os ossos, se distinguem de hum insensato, que com azas postiças presuma levantar o vôo, e girar em torno das orbitas dos Planetas?

Porém os crentes não fechão voluntariamente os olhos da razão? Não se immergem voluntariamente nas trévas da Fé? Vós aqui dissimulais com vossa costumada perfidia, e malicia ter visto a clara luz que eu vos mostrei{38} na manifesta palavra de Deos, a cujo clarão inextinguivel nós caminhâmos, e confundis com hum de vossos ordinarios sofismas as trévas do entendimento com as trévas da razão: mas eu vos farei bem depressa conhecer quaes sejão, e a quem pertenção as primeiras, quaes sejão, e a quem pertenção as segundas. Trévas de entendimento são aquellas de que se vê rodeado nosso espirito, quando, por mais que investigue, e procure descortinar certos arcanos da Religião, não chega a conhecer, nem o seu modo, nem o seu fim, nem a sua causa: eis aqui aquelle abysmo insondavel á vista do qual bradava o Apostolo--oh altitudo! Mas isto são trévas necessarias a que podemos chamar sagradas sombras, em quanto se derivão, e se derramão da incomprehensivel Natureza do Ser Divino, e das Divinas operações, e por isto são trévas universaes para todos os entendimentos creados, são trévas para mim, e para os profundos pensadores;{39} são sombras minhas, e sombras vossas por mais que vos chameis illuminados, nem são mais dos Egypcios, que dos Hebreos, nem mais dos Gregos, que dos Romanos, nem mais dos incredulos, que dos infieis, ou dos idolatras. Porém quando, ou por hum estranho orgulho não se queirão nem conhecer, nem confessar estas trévas, ou conhecendo-as, e confessando-as se fechão os olhos á luz da divina palavra, que torna firme a nossa fé no meio destas mesmas sombras, então as trévas que erão só do entendimento passão para a razão, e se tornão trevas voluntarias, e por isso trevas culpaveis, trevas deshonrosas, trevas de homem, que por ser pertinacissimo, renuncia os dictames da recta razão, e desce, e se faz semelhante aos mesmos brutos.

Eu me magôo, e penalizo, oh espiritos incredulos, devendo dizer-vos que esta tão tenebrosa, e aviltada razão, he pontualmente a vossa,{40} a tanto mais me penalizo quando mais conheço que vós quereis ser homens pensadores fóra do uso commum, e da vulgar esfera. Mas talvez que vos lembre alguma resposta, que vos livre ao menos em parte desta vergonhosa infamia. Pensai, estudai, meditai, consultai os vossos mais meditabundos Veneraveis, lê-de, e relê-de vossos amados livros, o vosso Tindal, o vosso Collins, o vosso Bolimbrocke, o vosso prezadissimo Oraculo de Fresney, vê-de se nesse erario de paralogismos podeis achar algum argumento, alguma palavra que vos possa destruir o vergonhoso labéo de serdes em materias de Fé homens desprovidos de razão. Eu mesmo, não posso encontrar, por mais que subtilize, huma só vereda por onde vos possaes escapar. Vós me concedesteis já, não o podeis negar, que existe Deos, vós tambem me deveis conceder que elle haja revelado aos homens o culto com que quiz ser adorado pelos mesmos homens, que{41} o revelou, e manifestou de huma maneira descoberra, e sensivel, milagrosa em cada huma de suas circumstancias que este culto, para ser digno delle, devia conter verdades superiores á esfera do humano entendimento, e que de outro lado este humano entendimento he tão pouco penetrante, que não póde presumir sem loucura que conhece, e entende todas as verdades fysicas, e naturaes. E porque estes Dogmas da Fé se envolvem em magestosas sombras, e sagrada obscuridade, vós recusaes acredita-los sem que se vos torne evidente sua possibilidade, ordem, e economia; e nós os fieis que os acreditâmos sem tão filosoficas delicadezas somos tratados por vós, profundissimos pensadores, e accreditadores das verdades, do Monitor, de estupidos inimigos do bom siso, e de pessimos raciocinantes.

Nós, continuão os Veneraveis a clamar, não dizemos que vós sois pessimos racionantes, dizemos sómente que conservaes em estupido ocio{42} a razão, e o discurso. Isto he huma retirada que eu não podia esperar, mas esta mesma retirada não os salva de serem seguidos, e feridos com as armas da razão. Dizem pois, que eu por ser crente, sou constrangido a conservar em ocio vituperoso o discurso humano, sepultando o maior talento, ou dom da Natureza, que he o lume da razão. Grande Deos! E era de esperar isto de homens que tem olhos para ver, e razão para discorrer! E era de esperar huma semelhante impostura? Entrai oh incredulos, em alguma daquellas respeitavel Bibliothecas conservadoras, e depositarias da sapiencia Christã, e alongai a vista para o assombroso, e surprendente número daquelles volumes cheios de amplissimas provas da verdade da Religião Evangelica, e para que não digaes que constituo ante vossos olhos alguma Legenda crédula, algum Mistico a que chamais Visionario, lê-de unicamente Grocio, e Locke ambos defensores,{43} ambos demonstradores da verdade do Christianismo, e de seus augustos Dogmas. Aqui achareis demonstrações luminosissimas, e levadas até a evidencia; os quaes os mais pertinazes das vossas nocturnas, e tenebrosas escolas não se atrevêrão ainda a responder, e os mais atrevidos não tiverão ainda outra resposta que dar mais do que vilipendios, e motejos plebeos: e quando tem querido dar resposta, como serios argumentantes, não tem feito mais que oppôr ás provas daquelles dois profundos Filosofos, fabulosas relações, Padres suppostos, Escrituras falsificadas, Authores suspeitos, e desacreditados, e se vós chamais ás provas do Christianismo fructos do ocio Christão, que chamarei eu a taes objecções, fructos da vossa pensadora incredulidade? A respeito pois da Essencia Divina, da sua immensidade, da sua immutabilidade, da sua eternidade, que tem imaginado de grande, e que descobrimento tem feito os vossos profundos{44} pensadores, e os maiores oraculos do maior Oriente, para que se não creia em nossos pensadores Christãos? Tudo quanto disserão sobre a Natureza Divina os Socrates, os Platões, os Democritos, os Zenos, e outros Mestres pelo muito uso que fizerão da razão natural dignos de fama, e de memoria, he apenas hum balbuciamento de tenros meninos a respeito do que ensina o menos profundo dos Theologos Christãos, e o mais superficial, e insignificante dos nossos livros. A causa de tão grande differença entre uso de razão, e uso de razão, se vos dignaes escutalla o mesmo Evangelho a está declarando. De differente maneira edifica aquelle que escolhe para o edificio hum terreno compacto, e pedregoso, do que edifica aquelle, que escolhe hum terreno movediço, e solto; o primeiro não tem medo de levantar alto da terra o edificio que constroe, em quanto o segundo, attendida a natureza do terreno, se vê obrigado a conservar{45} muito baixo o edificio, nem põe huma pedra sobre outra pedra sem receio de que crescendo o pezo cahia tudo confuso, e despedaçado sobre o infiel terreno. De similhante maneira acontece a hum entendimento, que tem fundamentado suas decisões sobre o firmissimo alicerce da sua Fé. Sobre estas bases se póde levantar com a razão, até ao solio do Immortal, para investigar a Essencia Divina, e as Divinas perfeições sem erro, e conhecer sem perigo cousas remotas, e distantes do entendimento humano. Pelo contrario os incredulos, e os Veneraveis que tanto me tem taxado de embecilidade, sem o fundamento da Fé, por pouco que se queirão levantar com a razão, devem sempre temer huma confusa ruina de caprichosos fantasmas, e vergonhosas contradicções.

Ainda com o impeto, e força desta evidencia não emudecem os pertinacissimos impugnadores, ou refutadores analyticos: que ha que dizer{46} (erguem elles animosamente a voz) que ha que dizer a estas nossas livres fantazias, ás quaes se dá o odioso nome de caprichosas! Por ventura, não são elas hum amplo patrimonio, hum direito innato do espirito humano? Custa-vos acaso, que nós os pensadores recusando crêr, nos conservemos na posse daquella liberdade de pensar que a Natureza nos deo, e que tanto tem dilatado os nossos Veneraveis, e da qual tão injustamente nos despoja a Fé? Ah! Illusos fraternizadores, e niveladores! E porque não dizeis, que tambem a Filosofia despoja o entendimento humano da liberdade de pensar? Quantos vôos de engenho he preciso refrear, quantos systemas he preciso regeitar, quantas invenções he preciso sacrificar, ás leis daquella, que segundo o vario gosto dos Seculos se chama boa, e razoavel Fysica? Vos que accusaes a Fé de ligar o entendimento, e de o condemnar a huma individa servidão, porque não accusaes tambem as Sciencias,{47} que todas tem seus principios, suas regras, seus confins, que da mesma sorte que pratica a Fé, põem hum freio, e prescrevem leis ao licencioso entendimento?