Com effeito, ou se considerem as sciencias, ou se considere a Fé, ou isto em vós he huma grosseira impostura, ou huma equivocação pueril, porque esta liberdade de pensar de que dizeis vos despoja a Fé, vós por certo a julgais, e a entendeis huma liberdade sabia, digna de hum homem racional, e não huma liberdade de fernetico, ou de hum sonhador febricitante. Ora dizei-me em que vos violenta, ou vos constrange esta Fé, cuja prepotencia vós tanto exageraes? Ella vos obriga a dizer que existe Deos, e esta existencia já está demonstrada pela razão natural. Ella vos obriga a confessar que este Deos existente fallára aos homens, e he evidente que elle fallou pelo exactissimo complemento dos vatecinios. Ella vos obriga a confessar, que as{48} palavras deste Deos são infaliveis, e he inegavel que não podem deixar de ser infalliveis pois são de hum Deos que encerra em si todas as perfeições. Fóra disto eu não posso, nem he possivel descobrir cousa em que se constranja, ou tyrannize, como vós dizeis, a vossa liberdade; salvo se vos queixaes de perder aquella liberdade que quereis ter de ajuntar contradicções, de engrazar impossiveis, e de dar ao Mundo (como tendes feito em tantos Livros ineptos quantos ha desde o Militar Filosofo, até ás próvas do Mahometismo, ultima producção de Holbac,) quimericas imaginações por verdades demonstradas. Se quereis permanecer neste estado como vos prescreve o Codigo de Weishaupt, o de loucos varridos ainda he mais vantajoso.
E, á vista disto, que estrepito se não tem feito, e se não continua ainda a fazer pelos subterraneos, que tremem da Policia vigilante, que os faz ir republicanizar, e igualizar em{49} masmorras, sobre a miseravel escravidão do humano entendimento, e sobre o tyrannico imperio, que a Fé, segundo elles clamão, tem usurpado sobre a razão natural? Que queixas eu não tenho ouvido fazer sobre os pequenos progressos que tem feito no Mundo, depois da entrada do Christianismo a profana Litteratura? Que compaixão não fingem ter dos engenhos catholicos, que tendo azas com que poderião sobir acima das nuvens, se curvão, e encolhem ao jugo da crença, abatendo os vôos, e andando quasi de rojo pela terra? Mas se se quizer examinar, ou vêr sómente que cousa seja este remontar-se sobre as nuvens, achar-se-ha que não he outra cousa mais que arrancar do entendimento (á força de pensar livremente) o innato conceito da honestidade, o innato horror do vicio, fazer das acções justas, e das acções injustas huma invenção do interesse, ou apenas huma das ceremonias da vida civíl, e da conducta politica;{50} collocar, e estabelecer na força maior hum justo direito de roubar, e de matar seus similhantes; tirar das mãos aos Principes, e aos Dominantes a espada punidora de suas escandalosas maldades; e fundar toda obrigação que tem os homens de honrar, e obedecer a Deos, não em seu infinito merecimento, e em seu supremo dominio, mas unicamente em seu irresistivel poder. Eis-aqui, dizem elles, hum pensar livre, nobre, generoso, honrado, sublime, e não pensar com humildade, e sugeição de escravos, como fazem os Christãos. Eis-aqui o que se chama despregar soltamente as azas do entendimento, desferir com magestade os vôos como nos ensina o nosso Mestre Veissauph, e todos os nossos Cavalheiros do Libano, eis-aqui o que escutamos aos nossos Veneraveis, quando descalção as formidaveis, e tremendas luvas para nos fazerem vêr a luz em o ultimo dos nossos gráos, que vem a ser, ensinar-nos em Methafysica o{51} Pantheismo, e em Moral, a Igualdade acephala, e anarquica. Eis-aqui o que se chama entranhar-se no conhecimento da verdade, e não querer a vida, se não para a empregar na indagação da verdade, sem levar sempre ao lado o cégo, e molestissimo pedagogo da crença sobrenatural. Eis-aqui o que nos inculcou, e o que nós estudamos nos mais que sobrehumanos escritos do nosso Cidadão Genebrino.
Á vista disto, Senhores, eu creio, que ainda quando a Fé vo-lo não vedasse, vós não quererieis huma similhante liberdade de pensar, só para manter o decôro da vossa razão, e para não mostrar ao Mundo que constituis na extravagancia, e na loucura a gloria d'espirito forte, e pensador profundo. Resta pois que os valentes pensadores batão outro caminho que lhes possa lembrar, porque as veredas até agora tentadas os não tem conduzido, nem podem conduzir á sua tão vãmente preconizada victoria.{52} Mas elles são de fecundo engenho, e fertil de estratagemas na guerra anti-christã; acolhem-se á sua ultima trincheira, conforme a tactica do guerreiro, ou campião de Genebra, que he a dos milagres que nós acreditamos como simplices, fundando nelles hum dos motivos da credibilidade da Fé. Milagres, que elles como sabios, e profundos pensadores desprezão, ou orgulhosamente desconhecem. Mas he preciso antes que venhamos ás mãos, que os meus inimigos mostrem boa fé em o seu ataque, e que se não tornem como costumão pessimos pensadores, escrevendo, e divulgando, não sem motejos, e improperios, que nós os fieis somos crédulos em tudo aquillo que se nos offerece prodigioso com tanto, que encerre em si alguma cousa de devoto, e de mistico. Mas eu os considero tão amestrados na Ecclesiastica Historia, que não ignorão oue os tempos de huma tão abusiva, e facil credulidade, ou não existírão na Igreja,{53} ou se existirão em algum Seculo de decadencia, e dominação Gotica comprehendêrão em si hum pequeno numero de pessoas idiotas, e vulgares, fracções infinitezimas em o todo dos illustrados Christãos: elles não ignorão que a derramada luz da severa critica, da sagrada Hermeneutica, e das profundas indagações litterarias tem até destruido, e acabado a sua memoria. Além de que, esta crença dos milagres, exceptuando aquelles que estão registrados nas Santas Escrituras, não he entre nós crença divina, nem absoluta, nem sempre igual; he sim huma crença medida sempre pelo maior, ou menor valor da authoridade em que se firma. E á vista disto, quem póde taixar de aviltamento da razão o uso que nós fazemos do bom siso, a respeito dos acontecimentos milagrosos? Tem por ventura a Natureza ensinado aos homens outra regra de dar credito, ou de o negar ás mais estranhas, e inexperadas aventuras, mais que a{54} qualidade, e o numero daquelles, que nos referem, e testemunhão extraordinarios acontecimentos? Dirão por acaso que usa rectamente de sua razão aquelle, que porque hum facto he milagroso, conta em nada a authoridade, a multidão, o caracter, as luzes das suas testemunhas oculares! Usa bem da razão, quem reputa ignorantes os homens mais doutos, os mais agudos, e penetrantes por insensatos, os mais prudentes por superficiaes, e os mais santos, e virtuosos por impostores?... Mas se os milagres são impossiveis, como he possivel que se acreditem? Tambem a vossa razão vos diz que os milagres são impossiveis? Oh entendimentos felizes! E podesteis desde as vossas tenebrosas, e nocturnas cavernas do mysterio, e das vizagens, sobir aos ceos, e tomar huma exacta medida das forças da Divindade, e, considerando, ou a subita vista de hum cégo, ou a ressurreição de hum morto dicidir magistralmente, que não{55} chega a tanto o infinito poder do absoluto Arbitro da Natureza? Eu na verdade, não tenho medido palmo a palmo como vós fizesteis esta Divina Omnipotencia: todavia, parece cousa fóra de razão, que quem impôz as leis á Natureza, se haja elle mesmo feito escravo destas leis, com manifesta injuria de sua essencial, absoluta, e dispotica dominação. Mas se he preciso, oh grandes, oh profundos pensadores, tirar a Deos o poder absoluto de operar milagres, e considerar, e ter quantos se contão, ou de Moysés, ou dos Profetas, ou os de J. C. por outras tantas fabulosas invenções, então he preciso tambem negar todas as historias profanas, nenhuma das quaes tem por si a centesima parte daquellas próvas, que tornam autentica, e indubitavel a Historia Divina.
Eu já começo, de sentir algum tedio, em rebater huma calumnia que talvez fosse ferir em reverberação com nula ignominia, que fructo, os{56} escarnecedores, e motejadores da crença Christã. E agora que penso socegadamente me doe de não ter nesta contestação usado antes da doçura, que do rigor, para attrahir os incredulos: mas eu lhes supplico que se persuadão que este calor, e esta aspereza, que tem respirado o meu Discurso, não he culpa minha, mas se he licito dizello assim, he culpa da verdade. Esta verdade he branda de sua natureza, suave, e tranquilla, mas quando se vê impugnada, e atacada com audacia, e com injustiça, accende-se, inflamma-se em nobre ira, muda o sereno aspecto em carregado, e severo, veste-se de todas as armas, e toma huma lingoagem, ou tom, que faz sentir, a quem a ultraja, todo o seu incontrastavel valor. Com toda esta indignação pois, que he mais indignação da verdade, que indignação minha, creião que o meu coração os não póde escusar, ainda que deseje encontrar motivos de se Compadecer. Infelizes! Vivem em hum{57} Mundo, e frequentão sociedades onde os serios, e verdadeiros pensadores, não são mui aplaudidos: de outro lado elles querem sobresahir ao vulgo, e parecer homens, ainda entre os doutos, d'hum pensar profundo. As materias de Religião lisongeão, ainda mais que as outras, seus menos regulados costumes, o pouco trabalho de huma superficial, e desatenta leitura os surte de breves sentenças, ou triviaes apothegmas, capazes de nutrirem a sua intereçada incredulidade, e de excitar a admiração dos idiotas. Entre estes apothegmas, eis-aqui o principal. Que a faculdade racional, he superflua nos Christãos, os quaes devem crer, e não discorrer, porque se discorressem, talvez não acreditassem. Mas o paralello, que fiz do nosso discorrer, com o discorrer dos incredulos, não terá dissipado todo o seu engano? Pézem os principios de que fazemos partir, nós a nossa crença, elles a sua incredulidade, e tenhão,{58} não digo vergonha de si, e de sua scientifica soberba, mas tenhão dó da sua alma, que Deos pelos caminhos da razão tinha conduzido ao regaço da Fé. Confessem que se obstinão a pensar brutalmente, por huma soberbissima nauzea de pensar Christãmente. Que lhes fez J. C. para o não quererem acreditar como Mestre de huma doutrina celestial? Para que martyrisão perpetuamente seu espirito, e sua consciencia, contrastando a evidente santidade de seus Dogmas, a evidencia das Profecias que o annuncião, a evidencia dos factos que o comprovão, a evidencia dos milagres que o demonstrão? Basta.
Juliano Apostata tinha sempre na boca a inraciocinabilidade que os incredulos nos oppõem, e dizia que em nós Christãos, tudo era crer. Porém o immortal Orador Nazianzeno lhe disse, e o confundio desta maneira (Orat. 1.ª Cont. Julianum) Podes tu, que tanto admiras, e amas tanto as Seitas Gentilicas, reprehender-nos a{59} nós que fazemos esta honra, ou mais depressa esta justiça ao nosso Divino Mestre, e á sublimidade excellentissima, e inimitavel de seus dictames? Os teus amados Pytagoricos não tem por huma lei fundamental da sua escola, dever-se eximir das mais difficultosas questões que se lhes proponhão com aquelle seu decantado--Ipse dixit!--E nós porque não damos outra razão de nossos mysterios, mais que os ditos de hum Legislador conhecido com mil próvas por Divino, e infalivel, somos chamados por ti automatos insensatos, ou animaes sem entendimento?
Esta he huma parte do tão gabado discurso dos incredulos desta idade, declarar-nos réos de aviltada, e desprezada razão, porque nos apoiamos em huma manifesta authoridade suprema: porém elles não tem na boca a toda a ora, mais que certos nomes, que, ou a audacia tem feito famosos, ou tornou célebres: a habilidade de vestir á moderna, e com{60} estilo moderno as blasfemias antigas; como por exemplo--não he de crer que hum Deos, que he todo bondade, e misericordia haja de condemnar hum tão grande numero de creaturas, que vivem fóra da sua Igreja--(E porque as não ha de poder condemnar, achando que a sua infidelidade he culpavel!) Mas não se busquem tantos porques. Disse-o hum Sofista de París, ou de Genebra. Ipse dixit. Este Sofista he hum homem que tem em linha igual a momentanea lascivia, e a continencia Evangelica. He hum homem cujos incendiarios escritos forão lançados nas chamas pelos Decretos dos Tribunaes seculares, e vive em toda a terra infamado, e infame pela sua manifesta impiedade. Ipse dixit. He hum Tolland que diz que não ha lei que obrigue os homens a seguir a Religião revelada; e que seria Deos injusto se houvesse promulgado tal lei. E este Tolland arrastra-se em Londres de huma prizão para outra prizão, e morre foragido{61} em o frio, e nebuloso inferno de Holanda; Ipse dixit. Este he o mestre alegado, acreditado, e seguido. Seja embora condemnado, e proscripto pelos Magistrados civís, he mestre Ipse dixit.
Póde haver maior incoherencia; maior injustiça, que lançar-nos em rosto a nós o ipse dixit de huma Authoridade Soberana, sustentada com tanta evidencia, e conservar para si, e querer que valha o ipse dixit vacilante, e humano, e pronunciado por homens sem costumes, sem leis, sem patria, sem outra authoridade mais que a dos atavios ridiculos da Confraria das trévas, e dos subterraneos?
Destruamos finalmente o ultimo sofisma destas almas malevolas, ou dissolvamos o ultimo laço de huma fraudolenta equivocação com que pertendem tapar os olhos aos simplices. Nós acreditamos os Mysterios, he verdade: a respeito dos Mysterios acreditados, tudo nos Christãos he{62} crer, mas a respeito dos motivos de acreditar, tudo em os Christãos he vêr. Tudo he crer, a respeito dos Mysterios, porque estes sendo remotos dos sentidos, e superiores á razão humana, só podem ser objectos da crença: mas tudo he vêr a respeito dos motivos da crença, porque as provas da revelação destes Mysterios são tantas, e tão irresistiveis, que o espirito mais pertinaz não póde exigir outras maiores, e renovando outra vez a confrontação entre nós, e os incredulos, digo, que em nós, tudo he crer com summa razão aquillo que devemos crer, e nelles tudo he negar, sem razão alguma de negar, e com todas as razões de crer.
Se destes principios innegaveis, sobre materias de Religião, eu desço a analysar o uso da razão que os mysteriosos, e tenebrosos fazem sobre materias de moral, e de politica, eu os descubro igualmente monstruosos, e inconsequentes. Assim como a incredulidade os conduz voluntariamente{63} á sua eterna perdição, a mesma incredulidade os conduz á sua desgraça temporal. Todos os homens desejão efficacissimamente a sua ventura moral, e a sua ventura politica, como individuos unidos em sociedade, e diz-se que hum homem faz bom uso de sua natural razão, quando escolhe, e emprega os meios mais aptos, e porporcionados para aquelle fim. E será fazer bom uso da razão para ser feliz na ordem moral, não conhecer differença alguma entre o justo, e o injusto! Não se embaraçar com a qualidade dos meios, com tanto que se consiga o fim? Julgar licito, matar, roubar, calumniar, ou denegrir o seu similhante, para se avançar pelos caminhos da ambição! Julgar licito o furto com tanto que se empregue a maior força, e affirmar, como eu ouvi a hum, que a passagem violenta do dominio de quaisquer cousa de humas mãos para outras mãos não he delicto, porque a objecto arrancado não muda de essencia{64} na sua passagem, e não ha mais que a differença de seu possuidor, e que nunca póde neste caso haver perturbacão na sociedade, porque o direito da propriedade, he quimerico, e se existe, he só fundado na maior força, e que por isto (continuava elle) erão licitas, e justas as conquistas, e usurpações de hum monstro? Será fazer hum bom uso da razão natural, não julgar o adulterio hum crime, mas hum simples galanteio, e só estranhado pelo Gotico, brusco, anti-social, e preocupado? E com que descaramento, e impudencia nos diz hum monstro tão desmoralizado como este, que emprega a sua vida na indagação da verdade, e que não tem outro intento mais que reformar, e regenerar o Mundo! E não vemos nós espalhados estes atrocissimos principios pelos escritos da escola encyclopedista, e no malvado Livro que se chama--Os Costumes?--E a marcha da Revolução, não foi coherente a estes principios? As acções{65} de que somos testemunhas não são Corolarios destes infernaes theoremas de Helvecio! Ora ainda antes que falle no uso da razão que fazem os crentes, pelo que pertence á moral, não se envergonharão, e não se confundirão estes malevolos espiritos, em quem não cabe a sabedoria, se eu lhes disser que os mesmos Filosofos Pagãos, que inquirírão, e anciosamente buscárão o caminho da felicidade moral, fizeram melhor uso da sua razão constituindo a suprema ventura na pratica da virtude, e chamando virtude só áquillo que era conforme ao puro dictame da Natureza? Leião, e envergonhem-se, os principios de Socrates, quando se introduz em algum dos Dialogos de Platão, e os axiomas, e sentenças d'outros Filosofos que religiosamente nos guardárão Plutarcho, e Diogenes Laercio. Leião, se a tanto se atrevem, os escritos immortaes, e admiraveis de hum Marco Tulio, e fixem-se ao menos no sonho de Scipião, no Tratado{66} das Obrigações Civís, e nas eloquentissimas dissertações sobre os verdadeiros bens, e os verdadeiros males. Leião as engenhosas, e eloquentes paginas de Seneca: os profundos pensamentos de Epiteto, e os Tratados sublimes do Filosofo Imperante Marco Aurelio. Oh desgraça digna de lagrimas de sangue! Que hão de lêr estes detestaveis monstros, cuja liberdade de pensar, de que tão cégamente se ufanão, voluntariamente se encadeia, e não tem outro uso livre, mais que a diversa modificação que lhe dá o discurso do Veneravel, que elles escutão com a face cosida com a terra, e com as encruzadas mãos acobertadas de sanguinarias luvas.
Lancem-se os olhos para os actuaes resultados da Revolução, veremos quem faz melhor uso da razão na ordem moral, para a felicidade. E se eu contemplar os verdadeiros Christãos nesta mesma ordem moral? Bastará abrir o Evangelho, bastará{67} demorar hum pouco a vista sobre a conducta dos primeiros fieis, sobre os escritos adoraveis dos primeiros Mestres do Christianismo. Dizei-me, he fazer máo uso da razão natural, assustar-se, não só com o crime, mas até com a idéa, e pensamento do mesmo crime? Será fazer máo uso da razão natural buscar a ventura, e tranquillidade da vida moral só pelo emprego, e pelo exercicio da virtude? Ser superior á inquieta, e turbulenta ambiçao, á desasocegada, e desconfiada avareza, ao sórdido, e vil interesse, á deslumbrada soberba, ao sórdido, e vil interesse da gloria popular, e finalmente, á vergonhosa incontinencia? Será fazer máo uso da razão natural, abraçar os dictames da temperança, fugir da glotonaria, ser moderado, paciente, humano, compasivo, sensivel, generoso? Será fazer máo uso da razão natural, chegar com isso, que tanto assoalhais, e não tendes, e a que chamais filantropia, a hum tão subido gráo de heroismo,{68} que se amem, não só os homens em geral, como similhantes mas até os mesmos inimigos, porque são homens? Será fazer máo uso da razão natural vencer os movimentos tumultuosos da ira, e soffocar os internos brados de todas as paixões, apenas se fazem escutar nos coração do homem? Confrontesse a conducta aos verdadeiros Christãos, que no berço da Religião revelada apparecêrão no meio do Imperio da corrupção, e dos vicios com a conducta destes illuminados, que rejeitão, e desconhecem o foro interno da consciencia, e que não admittem para regra das acções humanas, mais do que o temor dos castigos temporaes, ou a esperança das recompensas terrenas, e então se conhecerá quem haja feito melhor uso da razão natural. Elles não querem conhecer senão delictos externos, e publicos, nós conhecemos além destes mesmos delictos, peccados, e reconhecemos até crime aquillo mesmo que não foi mais que lembrado,{69} ou imaginado. Moral verdadeiramente pura, cuja sublime evidencia arrancou da boca do Sofista de Genebra aquelle admiravel elogio que elle faz ao Evangelho. Tanto póde a Verdade! A malicia, e a impiedade, nunca poderão contrastar sua victoriosa força! E poderá ainda dizer a impudencia, que nós os fieis não fazemos bom uso da nossa razão, quando buscamos a felicidade em a ordem moral?